terça-feira, 29 de julho de 2014

Avaliação docente

O predomínio da perspectiva da responsabilização em nível estadual acarreta consequências para as políticas educacionais, para as carreiras dos professores e, até, para o que acontece em sala de aula


Marta Avancini
 
Rayssa Coe
Catarina (à esq.) e Danielle: o professor está sendo tratado como apenas um elemento da cadeia produtiva

As avaliações docentes pautadas por bonificações concedidas com base nos resultados estão incorporadas às políticas educacionais da maioria dos estados brasileiros. É o que demonstra pesquisa realizada por Danielle Nogueira e Catarina de Almeida Santos, professoras e pesquisadoras do Departamento de Planejamento e Administração da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB).
Em 2012, as pesquisadoras coordenaram um levantamento nos sites e em documentos oficiais das secretarias de Educação dos 26 estados e no Distrito Federal, concluindo que 16 deles possuem processos de avaliação de desempenho baseados em resultados. Num primeiro momento, foi realizada uma investigação nos sites das secretarias estaduais de Educação, a fim de identificar a existência ou não de sistemas de avaliação de desempenho docente.
Confirmada a existência, as pesquisadoras fizeram uma análise de conteúdo dos documentos encontrados, destacando seus objetivos e a vinculação ao desempenho dos alunos nos processos avaliativos nacionais ou locais. “Buscamos entender se essas avaliações estavam voltadas para o desempenho profissional e progressão na carreira ou se o mote era a bonificação pelos resultados alcançados pelos professores e/ou alunos nas avaliações”, explica Danielle.
Os resultados evidenciaram que, em nível estadual, predomina a oferta de avaliações voltadas para a concessão de bonificações aos professores – seja pelo critério de desempenho dos alunos, seja pelos resultados alcançados pelas escolas frente a metas estabelecidas pelas próprias secretarias de Educação. E, mesmo em estados que não possuem avaliação docente, afirma a pesquisadora, o desempenho dos alunos nos exames oficiais (Prova Brasil, Saeb e avaliações locais) é usado como critério para bonificar os professores.
“A maioria das políticas de avaliação de desempenho docente se fundamenta na perspectiva da responsabilização, tanto como adesão a mecanismos de premiações quanto para monitoramento de metas por parte do Estado”, relata Danielle. “Nessa lógica, os mecanismos de premiação se apresentam de forma pontual, provisória e condicionada à avaliação”, complementa ela.
Responsabilização
Esses resultados foram analisados a partir de um referencial teórico que enfoca as relações entre avaliação, responsabilização, desenvolvimento profissional docente e reformas educacionais. Nessa medida, a análise enfoca o nexo entre as atuais políticas de valorização docente e as reformas educacionais, que vêm sendo implementadas no Brasil a partir dos anos 1980 e 1990.
O estudo se vale, como referência, de autores que se dedicaram aos quatro temas que percorrem a discussão: dentre outros, estão Abdeljalil Akkari – que trata sobre as reformas educacionais da década de 1980 –, Nigel Brooke, que enfoca a responsabilização, e Sandra Zákia, no campo da avaliação.
Há, então, três modalidades de responsabilização associadas ao desempenho docente, dependendo de como são aplicadas e das expectativas em relação ao comportamento do docente. Segundo Brooke, explica a pesquisadora da UnB, existe a responsabilização burocrática (procura a conformidade com as normas legais ditadas pela rede de ensino na qual o professor trabalha).
Uma segunda forma está relacionada com as normas formais e informais estabelecidas pelos colegas de profissão. “Assim, o professor é responsabilizado pela manutenção dos padrões da profissão perante seus pares”, diz Danielle. Na terceira forma, a responsabilização tem como base os resultados da escola. “Nela, o educador é responsabilizado perante as autoridades e o público em geral pela aprendizagem dos alunos. Além disso, as consequências, reais
ou simbólicas, são associadas às medidas usadas para aferir o desempenho dos alunos.”
Nesse sentido, as políticas de responsabilização, além de produzirem efeitos sobre os processos avaliativos dos sistemas educacionais, também influenciam no processo de profissionalização docente, quando passam a estabelecer padrões avaliativos de desempenho docente, enfatiza Danielle.
Paralelamente, o predomínio da perspectiva da responsabilização acarreta uma série de consequências tanto para as políticas educacionais, quanto para as carreiras dos professores e, até, para o que acontece na sala de aula. Isto porque elas servem de parâmetro para a qualidade da educação.
Qualidade em questão
A análise dos sistemas de avaliação docente ajuda a compreender as motivações que fundamentam as políticas de avaliação e de qualidade no Brasil. Para isso, é preciso lançar um olhar ao que vem ocorrendo nas últimas décadas.
A ascensão da perspectiva da responsabilização dos sujeitos – professores, mas, também, alunos – está diretamente ligada à forte expansão das avaliações em larga escala no Brasil, sobretudo desde os anos 1980. Naquela época, a qualidade do sistema era definida, principalmente, pelas avaliações em larga escala que evidenciam o desempenho de alunos em provas padronizadas (Saeb, Prova Brasil, por exemplo).
“Essas avaliações tenderam a determinar a qualidade da educação do Brasil, mas somente considerando uma dimensão do contexto escolar, o aluno”, conta a pesquisadora da UnB. Além de responsabilizar o aluno, a proliferação desse tipo de avaliação tende a delimitar o currículo nas áreas e conteúdos privilegiados pelos exames, em detrimento de outras dimensões também significativas para a formação escolar.
“Tivemos, portanto, um conjunto de políticas avaliativas que sustentavam uma concepção de qualidade que privilegia a performance institucional baseada em uma visão parcial da escola (nesse caso, somente sobre o aluno), tendendo a uniformizar as condições de aprendizagem e as características próprias dos sujeitos avaliados.”
Nesse cenário, as reformas trouxeram consigo um movimento de responsabilização pelos resultados obtidos nas avaliações – inicialmente dos alunos e, em decorrência disso, dos professores. “É nesse sentido que os efeitos da responsabilização acabam por induzir padrões de avaliação que levam ao ranqueamento de instituições, promovendo sistemas de premiação e punição.”
O professor como insumo
A responsabilização do professor pelo desempenho do aluno e pela qualidade da educação, nos moldes propostos pelas avaliações predominantes no Brasil, apresenta outro tipo de consequência: o tratamento do docente como um insumo, equivalente a um instrumento na cadeia produtiva, ao invés de ser tratado como um sujeito ativo no processo educacional, analisa a pesquisadora Danielle.
Como o objetivo são os resultados, nesta lógica, o professor precisa ser otimizado, a fim de gerar melhores resultados. “Pensando numa perspectiva produtivista, quanto melhores instrumentos o processo de produção dispuser, isso garantirá que seja eficiente e produza resultados mais satisfatórios. É o que acompanha uma tendência produtiva denominada de Qualidade Total.”
No entanto, é justamente nessa perspectiva que reside o cerne do problema, pois essa visão, defende Danielle, não condiz com o tipo de qualidade desejada na formação dos educandos: a qualidade socialmente referenciada, ou seja, aquela que atende às necessidades dos sujeitos e não do mercado.
Por isso, concluem as pesquisadoras, as políticas de responsabilização incorrem num equívoco, pois, dadas as suas características, pouco contribuem para fomentar o desenvolvimento profissional docente, bem como para melhorar a qualidade da educação – pois funcionam mais como um instrumento de enquadramento da prática, com critérios definidos externamente e unilateralmente.
Desta forma, o sistema avaliativo pode ser um agente que contribui para o desenvolvimento profissional docente numa perspectiva reflexiva, ao contrário da lógica de enquadramento da prática docente em critérios definidos sem a participação desse profissional, que vem predominando no Brasil. O resultado, conclui Danielle, é a intensificação do trabalho docente e o fomento de uma lógica quantitativa e parcial de qualidade, avessa à ideia da construção de uma qualidade socialmente referenciada.

Sobre as pesquisadoras
> Catarina de Almeida Santos: pedagoga pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com especialização em Gestão Escolar, e mestre na área de políticas públicas de educação, na mesma universidade. Fez doutorado em políticas educacionais na Universidade de São Paulo (USP). É professora do Departamento de Planejamento e Administração, da Faculdade de Educação da UnB.
> Danielle Nogueira: licenciada em Educação Artística, com habilitação em Música pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), cursou especialização na área de gestão educacional - Administração Escolar e Metodologia da Educação Superior. Fez mestrado e doutorado na área de políticas públicas e gestão na Universidade de Brasília (UnB), onde atua como docente e pesquisadora no Departamento de Planejamento e Administração da Faculdade de Educação.
http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/207/os-efeitos-da-avaliacaoo-predominio-da-perspectiva-da-responsabilizacao-em-318100-1.asp

O verdadeiro problema ortográfico

“Problemas de escrita não podem ser controlados por lei”, defende o linguista Sírio Possenti em sua coluna de julho, referindo-se ao novo projeto de reforma que tramita no Senado brasileiro com o fim de simplificar a ortografia.
Por: Sírio Possenti

Em ‘Ubaldo, Fidel e o lápis’, José de Souza Martins conta que João Ubaldo Ribeiro e ele tinham um interesse comum: o uso popular de palavras ‘novas’, “que chegam às pessoas comuns através da tevê, do rádio e da publicidade”. Informa que Ubaldo tinha uma ‘besteiroteca’, que incluía exemplos como “Parabéns grassa você é muito espessial”, “Deus potrêja esta casa”, “Vende-se filhote de lavrador”, “Vende-se colchão altopédico”.
Primeira observação: uma das coisas que mais me espantam é que intelectuais de alto gabarito não tenham informações elementares sobre questões elementares de linguagem, que estão em qualquer manual que um calouro de letras pode ler (em verdadeiras faculdades de letras, não em colegiões).
Além de provocar riso, esse material também pode ser visto como fonte de dados de extrema relevância para uma descrição mais acurada da nossa língua
Especialmente, me espanta que cacem basicamente erros de grafia e que não manifestem a menor capacidade de compreender o que se passa na cabeça de quem escreve errado. Só riem. Se levassem em conta, por exemplo, a escrita antiga (do tempo de Camões, digamos), imagino que sua avaliação mudaria completamente. Mas parece que nunca viram nenhum desses documentos, que só conhecem as atualizações. No máximo, lembram de ‘farmácia’ com ‘ph’...
Claro que se pode reagir humoristicamente aos exemplos citados (e a muitos semelhantes), que podem ser vistos nas ruas e, hoje, no Google, digitando placas do meu Brasil. Mas, além de provocar riso, esse material também pode ser visto como fonte de dados de extrema relevância para uma descrição mais acurada da nossa língua. Especialmente, já que a besteiroteca tem a ver basicamente com ortografia, uma análise desses materiais poderia iluminar debates sobre o tema.

Nova reforma?

Mal se implantam as regras do recente acordo ortográfico entre países lusófonos e já surge um movimento para fazer outra reforma, que simplificaria a ortografia. Ela seria mais uniforme (por exemplo, prescreve escrita uniforme para o fonema /s/, que sempre seria grafado com a letra ‘s’, o que resultaria em escritas como ‘sesta’ para as atuais ‘sexta’ / ‘cesta’ / ‘sesta’); e seriam eliminadas algumas “contradições” (‘estender’ e ‘extensão’, por exemplo).
Erro ortográfico
Exame da escrita popular e da produzida nos primeiros anos de escola revela vários tipos de erros ortográficos. Por isso, a questão não pode ser resolvida apenas com base na análise fonológica da língua. (foto: Eduardo Rodrigues/ Flickr – CC BY-ND 2.0)
Ora, qualquer análise da escrita popular e da produzida nos primeiros anos de escola mostra que os erros de grafia se dividem em diversos tipos: a) erros como escrever ‘casa’ e ‘exemplo’ com ‘z’, ‘caça’ com ‘ss’, ‘jeito’ com ‘g’ etc.; b) erros ligados a pronúncia variável (‘mininu’  (=menino), ‘curuja’ (=coruja), ‘anzou’ (=anzol), sem contar a famosa troca entre ‘mal’ e ‘mau’; c) juntar palavras separadas (‘serhumano’, com ou sem ‘h’) e separar palavras (‘ante posto’); d) acrescentar (‘apito’ = apto) ou tirar (‘habto’ = hábito) letras; e) eliminar ditongos (‘vassora’, ‘otro’, ‘pexe’) ou criá-los (‘professoura’, ‘bandeija’) etc.
Ou seja: uniformizar a grafia com base em análise fonológica não resolve o problema que se pretende resolver, porque se parte de duas hipóteses sem nenhum fundamento: a) que todos os falantes adotam a mesma pronúncia; b) que o único problema é a relação letra/fonema. Ora, como os poucos exemplos mostram, os problemas são mais numerosos e nenhuma reforma pode resolvê-los.

Saídas para uma escrita melhor

Os exemplos de João Ubaldo revelam alguns aspectos mais complexos. Se ‘espessial’ assinala um problema desses que qualquer um consegue mencionar, nem toca no problema que surge na escrita de palavras menos conhecidas.
O exame de casos mostra que uma das soluções do escrevente é associá-las a palavras conhecidas, como no caso de ‘altopédico’, mais ou menos misteriosamente associado a ‘ortopédico’, um provável exemplo de etimologia popular: sendo ‘orto’ uma forma desconhecida, é associado a ‘alto’, forma conhecida. Pela mesma razão, escreve-se ‘lavrador’ por ‘labrador’.
Mesmo uma fonologia elementar, ‘aplicada’ à escrita, tem excelentes explicações para grafias como ‘malmita’, ‘agricula’, ‘chapiação’, ‘conzinheiro’, ‘viaigi’, ‘almusar’ (para o ‘u’, no caso), ‘afiace’ (afia-se), ‘dilícia’, ‘difisiu’ (difícil).
O que têm em comum todos esses casos, citados em O português popular escrito, de Edith Pimentel Pinto, é que não seriam atingidos por uma reforma que simplificasse a ortografia, porque sua origem não é a grafia legal diversa para o mesmo fonema nem uma pequena contradição local.
Leitura
Experiência com leitura e escrita é a única saída para superar as dificuldades ortográficas. Quem frequenta boa escola e escreve com regularidade geralmente não apresenta problemas graves de grafia. (foto: Camila Hermes/ Flickr – CC BY-NC 2.0)
O que origina essas grafias é uma hipótese elaborada por um escrevente com pouca escolaridade e, consequentemente, com pouca familiaridade com a escrita. O que indica a única saída para uma escrita melhor, desse ponto de vista: escola melhor e maior contato com a escrita.
Quem tem acesso a uma boa escola e escreve regularmente não tem problemas (graves, pelo menos) de grafia. Nem no Brasil, nem na França ou Inglaterra, países em que se falam línguas cuja escrita está bem longe da fala.
A única saída para uma escrita melhor é ter uma escola melhor e um maior contato com a escrita
Se projetos de reforma como o que tramita em Comissão do Senado forem levados adiante, pouquíssimos problemas de escrita que se encontram na escola e nas ruas serão solucionados. Simplesmente porque suas principais causas – a diversidade de pronúncias e as hipóteses dos escreventes – não podem ser controladas por lei.

Se a solução é óbvia, os caminhos para chegar a ela são conhecidos dos especialistas. Mas, infelizmente, são completamente desconhecidos não só pela ‘sociedade’, mas mesmo por representantes das letras de alto gabarito (e por senadores supostamente menos iletrados), como o revela a besteiroteca mencionada anteriormente.

Sírio Possenti
Departamento de Linguística
Universidade Estadual de Campinas

http://cienciahoje.uol.com.br/colunas/palavreado/o-verdadeiro-problema-ortografico

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Convite "Arraiá do Nho Nicolau"


Direito à educação Inclusiva: cadastre-se até 1º de agosto e receba os materiais da Semana de Ação Mundial 2014


Neste ano, a Semana de Ação Mundial acontecerá no Brasil de 21 e 27 de setembro e terá como foco o “Direito à Educação Inclusiva – Por uma escola e um mundo para todos”. Assim como nas edições anteriores da iniciativa, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação distribuirá gratuitamente materiais específicos para apoiar e subsidiar a realização de atividades locais. Trata-se de um kit que inclui cartaz, folder e manual com orientações e sugestões de atividades. Para receber esses materiais por correio, é necessário preencher o formulário disponível em: http://bit.ly/1nPVQaR. As inscrições vão até o dia 1º de agosto.
A proposta é realizar em todo o Brasil atividades que permitam a participação de todas e todos, alunos, professoras e funcionários da creche à universidade, gestores, conselheiros, profissionais da saúde e da assistência social, famílias, artistas, ativistas, entre outros, para debater como assegurar o direito à educação em escolas públicas, regulares e de qualidade a todas as crianças, jovens e adultos com deficiência.
Desafios da Educação Inclusiva
Em todo o mundo, as pessoas com deficiência estão entre os grupos de maior risco de exclusão escolar.  Segundo o último Censo Populacional (IBGE, 2010), o Brasil tem 45,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, o que representa 23,9% da população. A maioria das crianças e adolescentes com deficiência já estuda em escolas regulares. Em 2013, 77% (648 mil) das matrículas de alunos com deficiência estavam em classes comuns. Mas, os desafios ainda são grandes. A recusa em matricular essas pessoas ainda é um problema corrente e as escolas carecem de:
- Espaços, mobiliários e materiais didáticos acessíveis;
- Transporte escolar acessível;
- Salas e materiais para o (AEE) Atendimento Educacional Especializado;
- Formação inicial e continuada para o AEE aos professores e demais profissionais da educação; Tradutores e intérpretes;
- Profissionais de apoio, que auxiliem na alimentação, higiene e locomoção dos alunos;
- Currículo e avaliação flexibilizados.
A SAM
É uma iniciativa da Campanha Global pela Educação (CGE) que acontece simultaneamente em mais de 100 países, desde 2003. Em 2014, as discussões internacionais aconteceram entre os dias 4 e 10 de maio, para pressionar os governos no cumprimento dos acordos internacionais da área, entre eles o Programa de Educação para Todos (Unesco, 2000). No Brasil, a SAM é coordenada pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação.
Objetivo
Envolver a sociedade civil em ações de incidência política, de modo a exercer pressão sobre os governos para que cumpram os acordos internacionais da área, entre eles a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário.
Como participar
Como atividade nacional da SAM em 2014, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação e seus parceiros estão organizando um grande evento que acontecerá na semana de 21 a 27 de setembro. Várias atividades já estão programadas em todo o Brasil e você e seu grupo também podem propor a sua!
A Campanha Nacional pelo Direito à Educação está produzindo e distribuirá gratuitamente materiais específicos para apoiar e subsidiar a realização de atividades locais. Trata-se de um kit que inclui cartaz, folder e manual com orientações e sugestões de atividades.
A SAM 2014 é realizada pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação, com o apoio do Comitê Técnico formado pelas seguintes instituições: ActionAid, Campe (Centro de Apoio a Mães de Portadores de Eficiência), Escola de Gente, Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down, Fórum Nacional de Educação Inclusiva, Mais Diferenças, Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação) e Unicef.
Participe! Envie sugestões e tire dúvidas:
Tel.: (11) 3159-1243 (fixo Embratel) // (11) 95857-0824 (Tim)

http://undime.org.br/cadastre-se-ate-1o-de-agosto-e-receba-os-materiais-da-semana-de-acao-mundial-2014/

Processo Seletivo Simplificado para Tutores Proinfo




Secretaria de Educação de Cuiabá lança Edital para contratação de Tutores.



VEJA FRAGMENTOS DO EDITAL:

1 - DISPOSIÇÕES PRELIMINARES
1.1 - O Processo Seletivo Simplificado de provimentos de vagas e Cadastro Reserva de Tutores será regido por este Edital e executado pela 
coordenadoria de Formação/SME em conformidade com o Programa Nacional de Formação Continuada em Tecnologia Educacional (ProInfo Integrado) NTM/CF/DE/SME.

1.2 - Para se inscrever à vaga de tutor o candidato deve: 
a. Possuir graduação em qualquer Licenciatura;
b. Estar em efetivo exercício no magistério da rede pública de ensino;
c. Não possuir prévios impedimentos como: Termo de Desistência de Tutoria Proinfo, no período de 01 (um) ano, Sindicâncias, Processos em andamento por conflitos interpessoais;
d. Formação específica em Tecnologias Educacionais e/ou com conhecimento no Ambiente Virtual de Aprendizagem e-ProInfo.

2 - DAS INSCRIÇÕES E PRAZOS
2.1 - As inscrições para candidatos a Tutor serão efetivadas, pessoalmente no prédio Anexo à Secretaria Municipal de Educação situada à Rua Diogo Domingos Ferreira, 292, Bairro Bandeirantes, CEP 78.010-090, na sala da Coordenadoria de Formação/DE/DGGE/SME nos seguintes dias e horários:

DIAS: de 30 de julho a 01 de agosto de 2014 
HORÁRIO: 08h00 às 12h00 / 14h00 às 18h00



VEJA EDITAL COMPLETO : Edital 018/2014, páginas 15 - 18 ou AQUI

Ensino reprogramado

Escola em Pernambuco usa a programação de jogos para tornar o aprendizado dinâmico e despertar o interesse de alunos do ensino médio.
Por: Isadora Vilardo
O ensino da programação de jogos é capaz de integrar conceitos de diversas disciplinas,
como matemática, física e até química e literatura. (foto: Marco Antonio Torres/ Flickr – CC BY-SA 2.0)
Nos intervalos, uma partida de videogame pode ajudar a relaxar e divertir. Mas e se durante as aulas a tarefa fosse projetar um jogo de computador? Essa é a proposta da Escola Técnica Estadual Cícero Dias, em Recife (Pernambuco). Com o projeto Fábrica de Games, a instituição reúne suas turmas do ensino médio para a aprendizagem da programação. A atividade visa articular o uso de tecnologias digitais com os diferentes conhecimentos das disciplinas clássicas do currículo.
A mistura desses dois elementos – diversão e ensino – despertou a curiosidade do pedagogo Sthenio Magalhães, que analisou o projeto em seu mestrado no Programa de Pós-graduação em Educação Matemática e Tecnológica da Universidade Federal de Pernambuco. Para ele, a iniciativa é um dos caminhos para o uso das tecnologias digitais na educação. “Vivemos em um contexto permeado por diversas mídias, mas a escola ainda está engatinhando para saber como integrar as inúmeras ferramentas disponíveis ao processo de formação dos alunos”, diz.
Magalhães: “Vivemos em um contexto permeado por diversas mídias, mas a escola ainda está engatinhando para saber como integrar as inúmeras ferramentas disponíveis ao processo de formação dos alunos”
As atividades da Fábrica de Games acontecem simultaneamente às aulas do currículo clássico e são voltadas para todas as turmas dos três anos do ensino médio. Para programar os jogos – que podem ser desenvolvidos para computador ou celular –, os alunos colocam em prática principalmente habilidades de matemática e física. Já outras disciplinas, como literatura, geografia e química, são integradas de acordo com os jogos programados. “Uma das atividades foi elaborar uma tabela periódica interativa”, conta Magalhães. “Para fazer isso, foi preciso pesquisar e adequar conceitos de química.”
Para o pedagogo, o grande benefício do projeto, no entanto, está na relação dos alunos com o ensino. “Nas atividades da Fábrica de Games, os estudantes se sentem mais próximos dos professores e sujeitos no seu processo de aprendizagem”, avalia. “Eles se interessam por desenvolver o jogo; e o professor está ali para assessorá-los. Essa parceria mostrou ser muito significativa do ponto de vista pedagógico.”
Magalhães ressalta que esse tipo de relação é diferente do que acontece nas aulas tradicionais, em que o conhecimento é transmitido por uma via de mão única. “A estrutura da sala de aula é arcaica, com alunos enfileirados diante do professor”, diz. “A dinâmica descentralizada das aulas de programação contribuiu para que os alunos se engajassem no desafio de compreender e manipular saberes de disciplinas como a matemática, que normalmente encontra maior resistência.”
Além disso, ao contrário do que costuma ocorrer na sala de aula regular, a maior parte das atividades da Fábrica de Games é desenvolvida em grupo, outro ponto positivo na visão do pedagogo. “Assim, alunos em diferentes estágios de aprendizagem, do mais elementar ao mais avançado, têm a oportunidade de trocar ideias e construir o conhecimento coletivamente.”
Segundo Magalhães, os comentários dos próprios alunos refletem a importância do trabalho em equipe para motivá-los. “Muitos deles aprovaram o projeto e sentiram falta de uma maior integração dos professores das disciplinas clássicas com a Fábrica de Games”, conta. “Eles queriam usar na sala de aula regular os jogos desenvolvidos.”

Sem consenso

O estudo da programação por crianças e jovens não é uma unanimidade. A prática, que se tornou febre nos Estados Unidos e está chegando ao Brasil – inclusive como tema de novela –, levanta polêmicas sobre sua pertinência nas classes iniciais de ensino e sobre os interesses particulares envolvidos, como já foi mostrado em outro artigopublicado nesta seção.
Computadores em sala de aula
A inclusão do ensino da programação de jogos no currículo das escolas é uma questão que tem gerado polêmica. (foto: Judy Baxter/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
Para o pedagogo Sthenio Magalhães, no entanto, a atividade tem suas potencialidades. “A Fábrica de Games, por exemplo, envolve jovens de 15 a 18 anos e, nessa idade, a relação com a tecnologia digital já é forte”, afirma. “O projeto aproveita o gosto dos jovens por esse tipo de tecnologia e apresenta uma nova perspectiva de uso, de cunho pedagógico, sem perder o aspecto da diversão.”
Magalhães: “O projeto aproveita o gosto dos jovens por esse tipo de tecnologia e apresenta uma nova perspectiva de uso, de cunho pedagógico, sem perder o aspecto da diversão”
Magalhães acredita que o ensino da programação seja polêmico devido a uma visão pessimista em relação às tecnologias digitais em sala de aula. “Muitos pensam que a tecnologia irá substituir professores”, diz. “Porém, no projeto desenvolvido na escola Cícero Dias, essas tecnologias vieram acompanhadas de uma perspectiva mediadora da educação, ajudando a modificar positivamente a relação aluno-professor e integrar os estudantes para além dos grupos definidos para trabalhos.”
Quanto aos interesses particulares no ensino, o pesquisador ressalta: “As empresas privadas que apoiaram a estruturação física da escola não interferem na formulação do seu currículo, que fica a cargo das esferas públicas pertinentes.” A Fábrica de Games é resultado de uma parceria do Instituto Oi Futuro e do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife com a Secretaria de Educação de Pernambuco.
O pedagogo enfatiza que os profissionais da educação estão caminhando para entender como as tecnologias digitais podem ser aliadas do ensino. “As ferramentas já existem – notebooks, tablets, lousas digitais –, mas precisamos criar estratégias que consigam integrá-las ao processo de ensino e aprendizagem sem esvaziar seus potenciais nem engessá-las.” E completa: “A Fábrica de Games é um meio que se mostrou eficaz.”

Isadora Vilardo
Ciência Hoje On-line
http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/intervalo/2014/06/ensino-reprogramado

Escritor lança dicionário com mais de 1,4 mil palavras e expressões de MT

Pesquisa de mais de dez anos registra vocabulário e regionalismos de MT.
Traços do linguajar típico de MT vêm sendo desvalorizados, analisa escritor.

O advogado e escritor mato-grossense Carlos Gomes de Carvalho passou dez anos pesquisando termos e expressões típicas do estado para compilar num dicionário inédito. (Foto: Renê Dióz / G1)
Resultado da mistura de influências indígenas, africanas, espanholas, lusas e do Brasil colonial, o linguajar mato-grossense produziu ao longo de três séculos um vocabulário singular repleto de termos e expressões que, até hoje, podem causar estranheza até mesmo a falantes da língua portuguesa. De maneira inédita, agora este inventário está sendo sistematicamente compilado e disponibilizado ao público. O escritor Carlos Gomes de Carvalho divulgou na última semana o fruto de dez anos de curiosidade e pesquisa: um dicionário com 1.495 verbetes exclusivos do falar mato-grossense, os quais não se encontram em qualquer outro dicionário nacional.
“Jacuba”, “Bereré”, “Ajoujar”, “Digoreste”, "Agora quando?", "Abombado", “Uru”, "Rebuçar", “Descabriado”, "Ê Ah!" são algumas das expressões listadas no “Dicionário de Termos e Expressões de Mato Grosso” (Editora KCM), cujo material abrange o palavreado típico do território mato-grossense desde o século XVIII.
Autor do livro, Carlos Gomes de Carvalho, que também é advogado e membro da Academia Mato-grossense de Letras (AML), explicou que os termos e expressões foram coletados principalmente na literatura e na imprensa local, mas também na convivência com mato-grossenses, e depois confrontados com dicionários da língua portuguesa. Ao todo, foram 77 autores pesquisados e 99 livros consultados.
Um dicionário para MT
Segundo o escritor, foi utilizado um critério de legitimidade no processo de criação do livro, intensificado nos últimos dois anos. Caso um termo encontrado já existisse com o mesmo significado e pronúncia em algum outro dicionário que não-mato-grossense ou fosse mais amplamente falado em outra região, ele era sumariamente descartado da obra (confira um comentário dele sobre o critério do dicionário no vídeo ao lado, onde explica a inclusão da interjeição "Vôte!").
Na obra, cada palavra ou expressão está acompanhada da referência de onde ela foi encontrada, em contos de Silva Freire, na prosa de Ricardo Guilherme Dicke, na fala de algum mato-grossense legítimo ou em textos publicados pela imprensa local. Parte das palavras desse dicionário naturalmente já caiu em desuso nas ruas de Cuiabá ou no interior do estado (ou até mesmo em localidades do emancipado estado de Mato Grosso do Sul, já que o livro abrange um período de três séculos), mas o conjunto da obra revela traços da cultura, da geografia e da história local.
ExpressãoSignificado
AbombadoAnimal exausto; cavalo cansado
AjoujarAtrelar; casar
BereréDinheiro fácil; propina
DescabriadoSujeito descontrolado
Pau-rodadoForasteiro (termo depreciativo)
QueimadaFlerte; piscadela rápida
RebuçarCobrir; cobrir-se com um cobertor
VasucrisLouvação; dar louvado
ZóteIndivíduo presunçoso, vaidoso; sujeito perigoso
É por meio de verbetes do dicionário que se recorda, por exemplo, como eram as touradas praticadas em Cuiabá em tempos mais remotos. O livro registra o termo “jacuba”, já em desuso, que designa o auxiliar e escudeiro do antigo toureiro. Já o termo “uru”, também não mais usado amplamente, era o jeito de se fazer referência a um cesto de fibra vegetal ou até mesmo às nádegas de uma mulher (confira  exemplos do "Dicionário de Mato Grosso" ao lado).
A obra também registra em definitivo o significado de ditados, frases e expressões mais consagradas do discurso local. Se poucos cuiabanos, mesmo hoje, têm dúvida de que “digoreste” significa algo bom e da melhor qualidade, alguns ainda não têm clareza do porquê de se falar “sou cuiabano de chapa [tchapa] e cruz” no intuito de expressar orgulho de sua terra.
O dicionário de Carlos Gomes de Carvalho traz mais de uma versão e abre espaço para as discussões: “chapa” faria referência à certidão de nascimento, enquanto “cruz” representaria a morte, na mesma terra natal; no entanto, como logicamente só poderia dizer tal coisa alguém que já morreu ou que pretende morrer na mesma terra, Carvalho explica no livro que outra versão do significado é “gente de nome”, de família tradicional, já que as antigas famílias da elite local faziam questão de relembrar sua ascendência portuguesa mencionando a “chapa” (da armadura dos colonizadores) e a “cruz” (“Cruz de Malta” ou “Cruz de São João”, de oito pontas, que representa Portugal).
Cultura ameaçada
Apesar de abranger os linguajares de Mato Grosso como um todo, Carvalho admite que a maior parte dos verbetes no livro é do universo do homem pantaneiro e do cuiabano, mas defende que o falar local há tempos necessitava de um registro para a posteridade. Segundo ele, a cultura cuiabana vem sofrendo nos últimos anos uma intensa desvalorização e, nesse processo, o linguajar é a principal vítima, com risco de perder e esquecer seus traços.
“É no campo da linguagem que se dá a valorização de um povo. A linguagem expressa a alma de um povo. O estado pode ser frágil, a economia pode ser frágil, mas se tiver uma linguagem, esse povo se projeta no tempo”.Isso porque, segundo o autor, no Brasil existe ocorre uma supervalorização de outros sotaques - como os do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Rio Grande do Sul – que acaba marginalizando ou tratando o “cuiabanês” de maneira jocosa ou até pejorativa.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Simone Maria de Azevedo: “É preciso diferenciar problemas de aprendizagem de dificuldades de aprendizagem”

Psicóloga, psicopedagoga e terapeuta familiar, Simone Maria de Azevedo integrou, durante 12 anos, equipe especializada de apoio à aprendizagem na Secretaria de Educação do Distrito Federal. Também trabalhou como professora em escolas públicas e particulares, por 16 anos, com atuação na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental.
Em entrevista ao Jornal do Professor, ela diz que é preciso diferenciar problemas e dificuldades de aprendizagem e afirma que os professores são muito importantes no processo de intervenção, independentemente do problema. “Seu olhar, sua postura, sua afetividade fazem toda a diferença”, ressalta Simone.
Jornal do Professor – O que são problemas de aprendizagem?
Simone Maria de Azevedo – São sinais indicativos de que algo não vai bem no aprender ou no ensinar. São comportamentos, atitudes, modalidades de lidar com os objetos de conhecimento e de se posicionar nas situações de aprendizagem que não favorecem a alegria de aprender, a autoria de pensamento, o sucesso acadêmico. Os problemas de aprendizagem podem ser classificados em sintoma, inibição cognitiva e reativos. Nos dois primeiros casos, as origens e causas encontram-se ligadas à estrutura individual e familiar do indivíduo que “fracassa” em aprender. No último, relacionam-se ao contexto socioeducativo. Ou seja, a questões didáticas, metodológicas, avaliativas, relacionais. É importante salientar que nos problemas de aprendizagem reativos o fracasso escolar pode demandar redimensionamento que englobe desde órgãos superiores responsáveis pela educação no país até as salas de aula. Já nos problemas em que os fatores desencadeantes são externos ao contexto escolar, geralmente há necessidade de uma avaliação especializada para buscar intervenções adequadas.
– Quais as principais manifestações dos problemas de aprendizagem?
– Comprometimento na interpretação de texto, disgrafia (deficiência na habilidade de escrever, em termos de caligrafia e também de coerência), dislexia, discalculia (dificuldade no aprendizado dos números), dispersão em sala de aula e nos momentos de realizar atividades e avaliações escolares. Modalidades de aprendizagem que não favorecem a assimilação e a acomodação dos conhecimentos de modo satisfatório, entre outros sinais, podem ser manifestações de problemas de aprendizagem. Entretanto, é preciso diferenciar problemas de aprendizagem de dificuldades de aprendizagem. Qualquer estudante pode atravessar, em algum momento da vida escolar, alguma dificuldade no aprender. Pode demorar um pouquinho mais para assimilar um conteúdo, para dar sentido ao que lhe é ensinado, por uma ou outra razão, sem, contudo, configurar um sintoma ou fracasso do professor.
Um problema de aprendizagem pode ser considerado como tal quando descartadas causas socioeducativas. Ou seja, quando os sinais persistem, apesar das intervenções educacionais. Nessas situações, muitas vezes, como foi assinalado anteriormente, há necessidade de investigação e leitura especializada. Ressalto, entretanto, a importância de cautela por parte dos educadores ao “diagnosticar”. É preciso cuidado com a tendência de atribuir a causas organicistas os problemas e dificuldades de aprendizagem apresentados pelos alunos. Considero muito válido o trabalho coletivo da escola. O estudo de situações, a ajuda e o apoio de outros profissionais – orientadores educacionais, coordenadores pedagógicos, psicólogos, psicopedagogos – são sempre muito positivos. Surgem novos olhares, tanto em relação à leitura dos problemas quanto às possibilidades interventivas.
– É possível que alunos que enfrentam problemas familiares apresentem dificuldades para aprender?
– Não necessariamente. Muitos de nós conhecemos crianças e adolescentes filhos de lares muito complicados e problemáticos que aprendem bem e são alunos de destaque. Conflitos familiares vão gerar problemas de aprendizagem quando a inteligência – aqui entendida como a capacidade de elaborar situações por meio da lógica, do pensamento, da cognição –, encontra-se aprisionada pela dimensão afetiva. Nas obras A inteligência aprisionada e Os idiomas do aprendente, de Alicia Fernández, a autora explicita muito bem essas situações. Entretanto, normalmente, em famílias muito conflituosas, crianças e adolescentes podem sofrer de depressão, apresentar transtornos variados, mostrar-se agressivos, hiperativos, ansiosos, desatentos, agitados e, assim, apresentar conflitos na escola. Isso, porém, não significa que tenham algum problema ou dificuldade de aprendizagem, mesmo que os sintomas apresentados perturbem seu desempenho e rendimento escolar.
– Como saber se um aluno apresenta, por exemplo, déficit de atenção ou apenas passa por um momento difícil? Parece que tem crescido a prescrição de medicamentos a estudantes que não conseguem ficar quietos na sala de aula. Isso está ocorrendo?
– Como mencionei, é preciso ter cuidado com concepções calcadas estritamente em determinismos genéticos ou ambientais. Um problema orgânico por si só, assim como o contexto ambiental por si mesmo, não responde isoladamente às causas dos problemas de aprendizagem. Um aluno ou aluna com comprometimentos orgânicos, em alguns casos, pode apresentar alguma limitação. No entanto, ainda assim, pode construir belas aprendizagens se lhe forem dadas condições afetivas, técnicas, didáticas e metodológicas que considerem suas necessidades e potencialidades. Minha experiência tem mostrado que crianças e adolescentes diagnosticados com déficit de atenção são pessoas que têm sofrido sérios conflitos subjetivos e familiares. Conflitos sintomatizados em desatenção. Entendendo os sintomas (no caso, a desatenção) como um modo de dizer algo, falar de algo, uma linguagem que o sujeito usa para comunicar alguma coisa, um pedido de socorro, é fundamental que os profissionais da educação e da saúde se perguntem sobre eles. Quais as possíveis causas que levariam uma criança a se dispersar constantemente? Em que momentos e situações esse sintoma ocorre com maior frequência e intensidade? O que é atenção? O que é atender? Ser atendido? Quais as concepções teóricas ao levantar hipóteses acerca do diagnóstico de TDAH [transtorno do déficit de atenção com hiperatividade]?
Sobre a prescrição de medicamentos, é alarmante o crescimento do número de crianças, adolescentes e adultos que os usam. E uma das grandes preocupações que tenho é com o fato de, na maioria das vezes, não serem buscadas as verdadeiras causas que geraram e mantêm os sintomas. De muitas vezes não ser incluída nos diagnósticos e nas intervenções a visão analítica e sistêmica das situações. Enfim, de não se abrir espaços de pensamento acerca dos motivos pelos quais uma criança, por exemplo, está desatenta, dispersa. “No mundo da lua”, como costumam falar muitos professores e pais.
– As escolas estão preparadas para ajudar os estudantes que apresentam dificuldades de aprendizagem e, assim, evitar o fracasso escolar? O que pode ser feito?
– A atualidade, com toda a sua diversidade, demanda reflexões acerca de concepções e práticas. Redimensionamento na atuação profissional. Porém, o investimento individual e governamental ainda é pequeno e ineficaz. Observa-se, contudo, em algumas localidades do nosso país e em certas escolas, em particular, um movimento mais organizado e prioritário na formação dos professores. No Distrito Federal, por exemplo, cursos variados estão disponíveis na rede pública de ensino. São também programados momentos semanais de formação continuada nas escolas em que os professores atuam. Eles lecionam em um turno e no outro realizam diferentes atividades. Entre elas, as mencionadas. Exemplo que deveria ser seguido por todas as unidades da Federação. Entretanto, na formação continuada deveriam ser incluídos espaços objetivos e subjetivos que permitam trabalhar questões psicopedagógicas essenciais para a qualificação do fazer pedagógico. O caráter subjetivo da aprendizagem, muitas vezes esquecido, é tão importante quanto a didática, os métodos, as técnicas.
– Os professores da educação básica têm condições de diagnosticar problemas de aprendizagem?
– Professores atentos, sensíveis, amorosos, estudiosos, éticos, que amam ensinar e aprender têm condições de perceber comportamentos e sinais indicativos de problemas de aprendizagem. Muitas vezes, é na escola que a criança apresenta algum sintoma alusivo a conflitos de naturezas diversas. Em se tratando de problemas de aprendizagem reativos, ou seja, em que as causas são de ordem socioeducativa – falhas ou inadequações no modo de ensinar e intervir –, docentes e demais profissionais da educação e da saúde que atuam nas escolas deveriam ser formados para identificá-los e resolvê-los. No entanto, quando há hipóteses de causas individuais e familiares, o diagnóstico carece de olhares clínicos. Contudo, os professores são importantíssimos no processo interventivo, independentemente do problema. Seu olhar, sua postura, sua afetividade fazem toda a diferença.
Alicia Fernández, psicopedagoga argentina, referencial teórico que sustenta minha prática, relata em sua obra A atenção aprisionada, publicada em 2012, cena observada em um hospital público de Buenos Aires:
“O silêncio da sala de espera é interrompido pela alegria contagiante de médicos e enfermeiras despedindo-se de um homem de seus 80 anos, que está recebendo alta hospitalar após 40 dias de UTI, entre a vida e a morte. A comovedora situação incita-me a aproximar-me do ancião quando ia caminhando – já sozinho – pelo corredor.
– Quero fazer-lhe uma pergunta – digo.
– Você tem tempo de escutar-me? Responde, oferecendo-me, de entrada, a primeira reflexão, que me faz pensar quantas vezes perguntamos, sem oferecer tempo para escutar. E, ao olhá-lo, surge a pergunta:
– De onde o senhor tirou forças para se curar?
– Essa é uma longa história. Se quiser, eu conto. Tenho 83 anos, tive um acidente na rua, e me trouxeram inconsciente. Escutava tudo o que os médicos falavam, mas eu não podia falar. Dava-me conta que eles diziam que eu ia morrer. Eu pensava que queria dizer-lhes: quero viver. E não me saíam as palavras. Então, comecei a pensar em alguém que tivesse acreditado em mim e assim, depois de tanto tempo, recordei-me da professora Teresa, minha terceira professora. Quer que siga contando?
– Sim, me interessa. O que recordou?
– O modo como ela me olhava, me escutava... Desde que comecei a escola, os professores diziam à minha mãe que eu não aprenderia a ler e escrever. Por um tempo, deixei a escola – ‘Não vai aprender tudo’. No ano em que retornei, porque tinha muita vontade de aprender, tive outra professora. Repetiu-se a história, voltaram a me tirar da escola. No ano seguinte, insisti pela terceira vez e, então, conheci a professora Teresa. Lembrei-me dela 70 anos mais tarde, estando em terapia intensiva, quando eu queria tirar forças para me curar...
– E o que foi que o senhor recordou sobre ela? – perguntei.
– Lembrei-me que ela me olhava como que dizendo: ‘VOCÊ PODE’...”
http://portaldoprofessor.mec.gov.br/conteudoJornal.html?idConteudo=3390

Avaliação: é preciso contextualizar os resultados

Chico Soares, presidente do Inep (Foto: Undime)
Tão importante quanto ter resultados, por meio de avaliações, é saber contextualizá-los. A frase é do presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Chico Soares. Ele ministrou, nesta quinta-feira (24), a formação sobre políticas e programas do Inep, durante o “Encontro de Planejamento para o Ciclo de Seminários”, em Brasília.
Soares falou aos participantes do Encontro sobre a contextualização das medidas de aprendizado feitas pelo Inep. Segundo ele, o resultado de uma avaliação deve considerar o que ele chama de trajetória – um sistema de educação que garanta acesso, permanência, promoção e conclusão – associada ao aprendizado. “Aprendizado é, hoje, a concretização do direito à educação”, enfatizou.
Alguns acadêmicos são contra o uso de avaliações, pois acreditam que essa não é uma forma válida para se medir o aprendizado. O presidente do Inep discorda. Ele explica que, a partir de um grande contingente, uma avaliação seleciona um grupo menor, chamado de amostra, para medir um indicador. “A avaliação é, sim, uma forma de medir o aprendizado. Por isso, ela é tão importante. De que adianta uma escola ter estrutura se o aluno não aprende?”, destacou Soares.
Todo o processo que envolve uma avaliação é importante. A avaliação em si, os resultados, a forma como se chegou a eles e a contextualização desses resultados. “É essencial saber, por exemplo, as características socioculturais dos estudantes, das escolas e dos municípios de residência”, exemplificou.
O Dirigente Municipal de Educação de Tabuleiro do Norte (CE) e vice-presidente da Undime, Alessio Costa Lima, acredita que o tema trazido para essa formação vai trazer excelentes contribuições aos educadores. “Essa é uma visão diferenciada do processo de análise dos resultados, pois atrela outros índices e evita que façamos comparações injustas, por exemplo”, concluiu Alessio.
Ainda na tarde desta quinta-feira (24), os participantes receberam capacitação sobre o tema “Educação 100% Inclusiva”, com a diretora de Políticas de Educação Especial da Secadi/MEC, Martinha Clarete Dutra dos Santos, e sobre as políticas e programas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Sigarp, PAR, Sigpc, Sigecon.
O “Encontro de Planejamento para o Ciclo de Seminários” vai até sexta-feira (25). Confira aqui a programação.
Autor: Undime

http://undime.org.br/avaliacao-e-preciso-contextualizar-os-resultados/

A genialidade das crianças

Estudos em neurociências mostram que nascemos com mais capacidades do que se pensava. E são essas habilidades inatas que nos permitem adquirir conhecimentos e nos tornam exímios aprendizes na infância.
Por: Vera Rita da Costa
Numerosos estudos apontam que bebês já possuem um entendimento primitivo das leis
básicas da física, sobretudo aquelas relacionadas ao movimento. (foto: Simona Balint/ Free Images)
Um dos grandes benefícios que as neurociências estão trazendo para a educação, principalmente para a educação na infância, é uma revisão da ideia de que o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem ocorrem em uma progressão ou em escala ascendente, em que estágios sucessivos e interdependentes são galgados passo a passo, como blocos de habilidades que se adquirem, se sobrepõem e se completam uns aos outros sucessivamente. 
De maneira um tanto quanto diferente disso, o que se tem sugerido, com base nos resultados de pesquisas dessa nova superárea do conhecimento, é a ideia de que nascemos com mais capacidades inatas do que se imaginava. 
Muitas habilidades, segundo os defensores dessa nova linha de interpretação do desenvolvimento cognitivo, já estariam disponíveis para nós ao nascermos. Entre elas, aquelas que justamente nos habilitam a adquirir conhecimentos e nos tornam exímios aprendizes na infância.
Dia após dia, acumulam-se evidências de pesquisa de que as crianças são mais capazes do que supomos
Já abordamos esse tema aqui em outra oportunidade, mas o que nos traz de volta a ele é outro aspecto importante da questão: até que ponto, apegados a modelos ultrapassados do desenvolvimento e desconhecendo o potencial real de nossas crianças, não estaríamos subestimando a capacidade de nossos alunos?  
É claro que ainda não há respostas estabelecidas para essa pergunta. Aliás, ela, junto com a interrogação sobre quais são as habilidades cognitivas com que nascemos e como fazer melhor uso delas, compõe a fronteira das pesquisas atuais dessa área. No entanto, com base em resultados de variados estudos, já é possível ‘arriscar’ uma resposta – e os ‘palpites’, nesse caso, indicam a direção do ‘sim’. 
Dia após dia, acumulam-se evidências de pesquisa de que as crianças são mais capazes do que supomos. E de que nossos currículos escolares, bem como nossas metodologias de ensino, precisam ser revistos, acompanhando os novos conhecimentos e a nova compreensão que se vem adquirindo sobre o desenvolvimento cognitivo.

Piaget revisitado

Se você é professor, sobretudo da educação infantil e das primeiras séries do ensino fundamental, conhece bem a realidade de que estamos falando. 
Em ciências naturais, o currículo, ou o que ensinamos a nossas crianças, costuma ser definido com base nos temas que o professor domina, julga importante ou considera ser do interesse dos alunos. E é claro que nessa escolha também pesam as ideias que o professor tem sobre aprendizagem e ciência de modo geral. 
Conceitos científicos tidos como complexos ou difíceis, por exemplo, costumam ficar de fora da educação infantil e das séries iniciais do fundamental, pois considera-se que as crianças não são capazes de aprendê-los. Melhor deixar os conceitos e questões considerados difíceis para as séries finais do ensino fundamental ou, ainda, para o ensino médio, quando os alunos ‘entrarão no estágio operacional formal’ e saberão lidar melhor com conceitos abstratos. 
Isso é o que reza a desatualizada e mal interpretada ‘cartilha piagetiana’ a que estamos apegados, apesar das recomendações contidas nas diretrizes curriculares nacionais que sugerem que não limitemos as escolhas temáticas a serem abordadas com as crianças.
Praticamente todo o conteúdo de física, química e geociências fica ausente do currículo de ciências no início da aprendizagem – relegado apenas ao ensino médio, quando se acredita que as crianças estarão mais ‘maduras’ para aprendê-lo
O resultado é que praticamente todo o conteúdo de física, química e geociências fica ausente do currículo de ciências no início da aprendizagem – relegado apenas ao ensino médio, quando se acredita que as crianças estarão mais ‘maduras’ para aprendê-lo. Com isso, o ensino de ciências naturais, de forma geral, fica restrito à aquisição de umas poucas e repetitivas noções de biologia e saúde – as mais elementares possíveis – para “não sobrecarregar as crianças”. 
Um exemplo? Aborda-se muito o corpo humano, hábitos de higiene e preservação ambiental. Mas, o que dizer do universo e de suas leis físicas? Você acha que são comuns currículos das séries iniciais que se dedicam a esses temas?
Certamente as crianças se interessariam por saber por que as coisas se movem, o que é a luz ou como o calor se transfere de um objeto para outro. Mas, sobretudo na visão dos professores e segundo o paradigma ainda reinante em nosso meio, esses temas envolveriam questões e conceitos muito complexos para serem abordados com elas. Melhor deixar pra lá!

Luz no fim do túnel

Na contramão dessa nossa tendência, no entanto, estudos têm demonstrado que mesmo bebês podem lidar (e lidam, independentemente de nossa intenção em relação a isso) com conceitos abstratos e complexos. Tudo depende da forma como estes lhes são apresentados.
Entre esses estudos, encontram-se os que vêm sendo desenvolvidos pelas equipes das psicólogas do desenvolvimento Elizabeth Spelke, da Universidade Harvard (EUA), eAlison Gopnik, da Universidade da Califórnia, em Bekerley (EUA) – e que podem agora, graças à internet, ser mais bem conhecidos por nós. 
Para continuar lendo e assistir uma conferência de Alison Gopnik, acesse: 

http://cienciahoje.uol.com.br/alo-professor/intervalo/2014/07/a-genialidade-das-criancas

Projeto exige fiscalização em obra de escola para liberar verba do Fundeb

O Projeto de Lei 6533/13, em análise na Câmara dos Deputados, prevê a visita de pelo menos três integrantes do conselho de acompanhamento e controle municipal do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) a obras para construção de escola com recursos do fundo. Pela proposta do deputado Artur Bruno (PT-CE), os pagamentos somente poderão ser feitos após a fiscalização.
Luis Macedo
Dep. Artur Bruno
Bruno: para melhorar a participação popular é preciso assegurar a produção de informações qualificadas.
O texto também obriga os municípios a divulgar os extratos bancários da conta específica do Fundeb na internet. Essa prestação de contas deve apresentar os favorecidos com pagamentos ou transferências de qualquer natureza.
Controle
De acordo com Artur Bruno, essa exigência foi sugerida pela Controladoria-Geral da União (CGU). Para o deputado, “diante de uma administração cada vez mais desburocratizada, descentralizada e flexível, o controle social é imperativo para a aplicação adequada dos recursos disponíveis”.
Bruno explica ainda que auditoria recente realizada pela CGU mostrou uma série de irregularidades no uso de verbas do Fundeb. Em sua opinião, os problemas poderiam ter sido evitados, “se a administração deste fundo fosse mais bem definida em termos legais e institucionais”.
Tramitação
Em caráter conclusivo, a proposta foi encaminhada às comissões de Trabalho, de Administração e Serviço Público; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Íntegra da proposta:

Reportagem - Maria Neves
Edição – Natalia Doederlein
http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/EDUCACAO-E-CULTURA/472014-PROJETO-EXIGE-FISCALIZACAO-EM-OBRA-DE-ESCOLA-PARA-LIBERAR-VERBA-DO-FUNDEB.html

Declaração para um novo ano

20 para 21  Certamente tivemos que fazer muitas mudanças naquilo que planejamos em 2019. Iniciamos 2020 e uma pandemia nos assolou, fazendo-...