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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A escola e a nova dinâmica familiar

Escrito por Carolina Mainardes


Uma nova dinâmica familiar, que coloca o filho no lugar mais alto dessa relação assimétrica, transforma a maneira de se pensar a educação e a forma da família se relacionar com a escola. “Hoje, é em torno dos filhos que gira a vida dos adultos da família. Essa é uma mudança radical e fundamental”, afirma Rosely Sayão, psicóloga e consultora em Educação. Frente a isso, Rosely acredita que a escola deve adotar uma nova concepção de educação e entender de forma mais clara as responsabilidades do processo educacional: “Cabe à família dar conta do filho, tornar essa criança um ser humano de bem segundo os valores da família, e cabe à escola formar essa pessoa para se tornar um cidadão de bem”. Para isso, ambas as instituições devem estar atentas ao fato de que não é possível instruir sem educar e nem educar sem instruir. Acompanhe a seguir a entrevista concedida pela psicóloga à Profissão Mestredurante sua passagem por Curitiba (PR), em fevereiro de 2014, para participar de um evento para educadores promovido pela Band News FM, Sindicato das Escolas Particulares do Paraná (Sinepe/PR) e pela prefeitura local.
Profissão Mestre: Qual o perfil da família na atualidade e que características essa nova família traz para a escola?
Rosely Sayão: Não é a nova família, são as novas famílias, não podemos mais falar em família no singular. Isso a gente conseguiu fazer até o final dos anos [19]50, mas daí para frente não tem mais jeito. E, portanto, não há um perfil, há diversos perfis. Mas, uma questão acompanha as novas famílias – não vou falar da configuração, do desenho, da composição –, vou falar da dinâmica familiar. O tipo de relacionamento entre os integrantes da família mudou radicalmente. Antes, a gente tinha um desenho que era bem clássico, que hoje diminuiu muito, mas ainda existe: a família com o desenho “pai, mãe e filhos”, que ficavam juntos, o casal “até que a morte os separasse” e os filhos até que tivessem vida própria. Hoje, o que temos são pais que não necessariamente estão juntos com os filhos. Eles podem estar distantes dos filhos pelos motivos mais diversos possíveis, desde um rompimento de casamento até excesso de trabalho. Essa relação [familiar] é assimétrica, e sem assimetria a gente não tem condição de praticar a educação. Mas, essa assimetria mudou, ou seja, hoje, quem tem o lugar mais alto nessa relação assimétrica são os filhos. É em torno dos filhos que gira a vida dos adultos da família. Essa é uma mudança radical e fundamental, que muda a maneira da gente pensar a escola, a relação com a escola, com a educação e tudo mais.
Profissão Mestre: O que muda na relação da família com a escola?
Rosely: Os pais sempre vão pensar nos seus filhos. Na escola, não há filho de ninguém. Na escola, há alunos. E quando as crianças fazem a passagem do papel de filho para o papel de aluno, elas mudam, nós mudamos. Qualquer um de nós, quando passamos a ocupar o lugar de aluno, muda. Às vezes, faço palestra para professores, e há aqueles que ficam no fundão, fazem barulho, passam bilhetinho, usam o celular. É um papel [de aluno] que vem carregado com um “pacote”. E quando os pais vão à escola falar dos filhos, eles falam de alguém a quem eles querem atender em cem por cento. E eles se esquecem, e a escola também se esquece, que eles não estão falando de seus filhos na escola. Aliás, a escola falha muito nesse sentido, porque ela deveria falar “nosso aluno” e ela fala com os pais o “seu filho” – não é o seu filho, o filho é uma coisa, o aluno é outra.
Profissão Mestre: É necessário que o professor tenha uma preparação diferente para adquirir uma nova concepção de educação?
Rosely: A escola deveria ter uma nova concepção [de educação]. O professor é uma figura, uma pessoa que exerce uma função em uma instituição. Mas quem precisa capitanear essa nova concepção é a instituição, porque daí as pessoas que trabalham na instituição vão junto. Se hoje temos muitos professores chamados de autoritários, retrógrados, é porque a instituição escolar falhou nesse aspecto.
Profissão Mestre: O que é responsabilidade da família e o que é responsabilidade da escola em relação à educação? Deve haver um trabalho conjunto?
Rosely: Há uma discussão em pauta, na sociedade. O [Fernando] Savater, filósofo espanhol, que também é um pensador da área da Educação, escreveu um livro maravilhoso sobre essa questão chamado O valor de educar (Ed. Dom Quixote), e ele já dizia sobre essa discussão, hoje em pauta no Brasil, de que a diferença entre educar e instruir é inócua, não existe, porque não é possível instruir sem educar e nem educar sem instruir. Essa é uma diferença que não existe. Mas, como já disse, filho é uma categoria e aluno é outra. Cabe à família dar conta do filho, tornar essa criança um ser humano de bem segundo os valores da família, e cabe à escola formar essa pessoa para se tornar um cidadão de bem. O filho diz respeito a um ambiente privado, a uma pessoa; e o aluno diz respeito a um ambiente público, a um cidadão.
Profissão Mestre: E como a escola pode se aproximar da família?
Rosely: É difícil. Toda nossa bibliografia, não só brasileira, mas [internacional] sobre educação, trata esse como um tema muito delicado. A pergunta que existe é: “É possível essa relação?”. Não conseguimos afirmar: “É possível”, e também não achamos bom que não haja proximidade [entre família e escola]. A maneira como temos agido não é boa nem para as escolas nem para a família, porque o que temos hoje é uma relação de poder entre uma instituição – bem ou mal, a escola é uma instituição, e tem normas e regras que todo mundo conhece – e as famílias, que são uma multidão desgovernada, porque cada família é um pequeno núcleo. Então teríamos que inventar uma maneira diferente de fazer essa aproximação, sem desrespeitar a família, a cultura familiar. Eu ouço muito as escolas falarem: “As famílias não educam”. Isso é uma falta de respeito muito grande, porque [a escola] não confia nos pais dos alunos. [A família] educa, sim. Não do jeito que as escolas e os professores gostariam, mas educa.
Profissão Mestre: Quando a senhora fala em uma maneira diferente de fazer essa aproximação entre escola e família, por onde começar?
Rosely: Participei de algumas experiências, e todas elas dirigidas por movimento dos pais e não da própria escola. O primeiro movimento dos pais, nas escolas que eu acompanhei, foi criar um grupo de pais – não se trata daquela associação de pais e mestres, porque é um grupo só de pais. A única motivação é que os filhos de todos eles frequentam aquela escola. Primeiro, eles tentam se organizar para evitar que cada um vá até a escola pedir algo relacionado a uma questão pessoal: “Meu filho precisa disso, precisa daquilo”. Eles começam a se organizar e formular pautas importantes para todo alunado e daí eles vão batalhar junto à escola pelas questões que consideram importantes para todos.
Profissão Mestre: A senhora critica a agenda lotada de atividades das crianças. Quais as consequências dessa rotina tão comum atualmente?
Rosely: A criança está perdendo o presente dela. Com essa mania que nós, adultos, temos de pensar no futuro dela, a gente rouba o seu presente. E toda vez que a gente rouba um pedaço de vida de uma pessoa, esse pedaço de vida voltará, mas não sabemos como. Temos algumas pistas: atualmente, os alunos universitários são absolutamente infantilizados. Os professores universitários não sabem o que fazer com aqueles adolescentes, que não têm autonomia, que querem ficar brincando. Isso já é um reflexo da geração na qual os pais queriam que seus filhos, lá pelos seus 4, 5 anos, fizessem informática, inglês, aprendessem a ler e escrever... É importante que a criança tenha tempo para ser criança. E ser criança é, basicamente, brincar. Essa é a linguagem da infância, e é brincando que a criança se comunica consigo, com as questões internas dela, e com o ambiente externo também, e entende o mundo.
Profissão Mestre: O que as novas tecnologias representam para o processo ensino-aprendizagem? O que muda na forma de ensinar com a presença da internet e das redes sociais?
Rosely: Por enquanto, nada. O que é uma pena, porque as [novas] tecnologias e esses aparelhos todos poderiam ser um estímulo para a mudança. Por exemplo, a gente proíbe o celular na escola porque a gente não sabe o que fazer com ele. Deveríamos integrar o celular à escola. E dentro do ambiente escolar, não vale contato de amiga, de mãe. Até porque, se a gente integrá-lo ao ambiente intelectual escolar, as coisas vão ficando mais tranquilas. Tenho visto muita escola com tablet – não há diferença entre o tablet e o caderno. Agora, as apostilas estão no tablet, passaram do papel para a tela. Não vejo nenhuma mudança. Podemos ter, e aí o céu é o limite. Cada escola pode inventar uma mudança. Temos vários exemplos já, mas preferimos, por enquanto, ficar na “idade das pedras”.
Profissão Mestre: Por que é tão difícil implementar mudanças no atual sistema escolar, mesmo com as novas tecnologias fazendo parte da vida dos alunos e professores?
Rosely: Porque o ser humano é muito resistente à mudança. Veja a questão das famílias – vamos terminar onde começamos [a entrevista] – as novas famílias: se você pega o corpo dos trabalhadores de uma escola, dificilmente você vai encontrar nesse corpo de trabalhadores – e eu incluo aí todo tipo de trabalhador da escola, não só professor –, quem tem aquela família formada por pai, mãe e filhos, todos juntos. Mas, na hora de falar da família dos alunos, a gente fala que ela é desestruturada, que os pais trabalham demais, mas o professor está na escola e tem filho em casa, sem pai e sem mãe também. A gente olha para fora e enxerga. Olhar para dentro é mais difícil. A escola acha o máximo dar tablet para os seus alunos, com a apostila lá dentro, e acha isso uma grande inovação. E ela olha para as escolas que não têm isso e pensa: “Coitadas, né?”. Mas, você não é capaz de olhar para si mesmo e falar: “Que besteira que eu fiz, deixei o mesmo conteúdo da apostila [no tablet]!”.

http://www.profissaomestre.com.br/index.php/reportagens/entrevistas/1107-a-escola-e-a-nova-dinamica-familiar

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Computador está fora da sala de aula na maioria das escolas públicas

Daniel Mello - Repórter da Agência Brasil Edição: Aécio Amad


A maioria das escolas públicas do país (99%) tem computador e acesso à internet (95%), mas a tecnologia ainda não está na sala de aula. Os dados são da pesquisa TIC Educação lançada na noite de hoje (10) pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI) por meio do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic).

Segundo a pesquisa, feita em 1.125 escolas em áreas urbanas e que ouviu estudantes, professores e diretores, em apenas 6% dos estabelecimentos os computadores estão instalados nas salas de aula e 85% nos laboratórios de informática. “O que é um negócio ainda meio esquisito, que é separado da biblioteca. Então, você passa a ideia que livro é uma coisa e computador é outra. Tudo fora de lugar”, disse o assessor da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (Unesco), Guilherme Canela.

Em 30% das escolas o uso do computador acontece prioritariamente na sala de aula, mas por esforço dos educadores. “Porque ou professor ou a professora gentilmente leva o seu equipamento para a sala de aula”, ressaltou. Diante desse fato, o assessor da Unesco indagou como é possível construir uma escola da chamada educação do século 21 se “o computador está em uma outra sala, trancada com 53 cadeados?”

Para o coordenador do Programa Cidadania dos Adolescentes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Mário Volpi, ainda faltam estratégias para uso dos avanços tecnológicos no ensino. Segundo ele, a maioria dos estados gastou tempo e dinheiro do poder público para aprovar no Legislativo uma lei que proíbe o celular na sala de aula, quando deveria gastar o tempo “para pensar como potencializar os processos pedagógicos com o uso do celular”. Volpi ressaltou que diversas organizações não governamentais têm projetos para uso do aparelho como ferramental educacional.

“Nós precisamos investir o tempo da repressão a essas tecnologias para otimizá-las, usá-las como recurso pedagógico”, acrescentou ao falar durante o seminário em que foi divulgado o levantamento.

Apesar da disseminação dos computadores e acesso à rede, a velocidade das conexões ainda aparece como um problema. De acordo com a pesquisa, 57% das escolas têm conexões até 2 megabits por segundo, velocidade mínima prevista pelo Programa Banda Larga nas Escolas. Essa velocidade só é superada em 19% dos estabelecimentos de ensino. Em 17% dos casos, a velocidade é inferior a 1 megabit por segundo.

Há ainda a disparidade regional. O acesso à internet é universal (100%) nas escolas do Sul e do Sudeste, mas atinge 86% dos estabelecimentos do Norte e Nordeste. Em relação à velocidade, o Nordeste e o Centro-Oeste concentram as conexões mais lentas, com 51% e 61% respectivamente das redes funcionando abaixo de 2 megabits por segundo.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2014-11/computador-esta-fora-da-sala-de-aula-na-maioria-das-escolas-publicas

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A importância da visão empreendedora na educação

Leo Fraiman


Como a escola pode deixar antigos paradigmas de lado e adotar uma nova forma de educar, mais consonante com um mundo em constante transformação, e numa velocidade cada vez mais rápida? Nessa nova realidade, a educação deve ter uma visão empreendedora, que contemple valores, esteja aberta às novas tecnologias, integre família e escola, transcenda o "conteudismo", aprenda a se conectar com as crianças e jovens deste tempo e considere o sonho e a felicidade como metas a alcançar.
A educação empreendedora parte de duas grandes premissas. Uma considera o valor do todo e de todos. É a partir do envolvimento de todos os profissionais da instituição e do alinhamento de suas atitudes que esta poderá servir a sociedade de forma ética e sustentável. A outra premissa é a integridade, alcançada quando se mobiliza cada ação cotidiana em direção ao maior alinhamento possível entre o que pensamos e desejamos. Ao unir pensamentos, sentimentos e comportamentos, uma pessoa está mais integrada consigo mesma, com a sua verdade, e obtém maior poder pessoal.
Não cabe somente ao professor, em sala de aula educar. A polidez, a clareza na comunicação, o desejo de ajudar devem estar presentes em cada gesto, olhar e atitude de todos os profissionais da escola. Pois tudo que se fala sobre direitos humanos na sala de aula vai por água abaixo se na secretaria da escola as pessoas tratam os pais de maneira indecorosa. De nada adianta a professora falar sobre a importância do capricho nos trabalhos aos alunos, se na hora do lanche eles recebem sua comida colocada de qualquer jeito no prato.
Assim como o aprendizado de língua portuguesa não se restringe somente aos professores desta matéria e precisam ser reforçados pelos colegas nas suas aulas (falando adequadamente e com clareza), nas provas (com boa redação e facilidade de entendimento), nos murais espalhados pela escola (atrativos, claros e motivadores) e na forma como tratam os alunos (com assertividade e polidez nas palavras usadas e na maneira de falar), valores, crenças e atitudes são transmitidas pelo que se fala e faz no contexto escolar. É preciso unidade para uma instituição se tornar forte e seu sucesso se mostrar duradouro.
Esse nosso jeito de educar está baseada numa série de compromissos, que norteiam todas as nossas ações e atitudes. O primeiro deles é com o aluno. Cada educando bem formado é fonte de novos bens, valores e força motriz para a sociedade. Isso significa que todos nós educadores cuidamos dos recursos humanos que garantirão o desenvolvimento do nosso país no longo prazo, e educar, assim, se torna um ato ético e sustentável. E você, como educador, já pensou em como pode adotar esses novos pensamentos e adaptá-los ao cotidiano de seus alunos?

LEO FRAIMAN

Leo Fraiman é psicoterapeuta, escritor e palestrante. É autor da Metodologia OPEE, adotada atualmente por mais de 150 escolas em todo o Brasil, e também do livro "Como Ensinar Bem", pela Editora OPEE, além de outros títulos publicados nas áreas de Orientação Profissional, Familiar e de Educação. Site: leofraiman.com.br
http://educacao.uol.com.br/colunas/leo-fraiman/2014/10/09/a-importancia-da-visao-empreendedora-na-educacao.htm

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Ensino híbrido incentiva autoaprendizagem no Japão

Instituto ajuda alunos a organizarem tempo e estudarem sozinhos a partir de motivações próprias fora do horário escolar 
Do outro lado do mundo, em um país com alto desenvolvimento tecnológico, o uso de ferramentas digitais em sala de aula ou até mesmo os cursos on-line encontram diversas barreiras para entrar no cotidiano escolar. O ambiente educacional japonês, que causa a curiosidade de muitos estudiosos devido às inúmeras conquistas atingidas, é predominantemente tradicional e rígido em seus processos de aprendizagem. Mas isso tende a mudar, de acordo com Kenji Komatsu, CEO do iPal (innovative personalized and autonomous learning, em inglês), um instituto privado para estudos extracurriculares (mais precisamente, inglês, matemática e japonês).
Tive a oportunidade de conhecer a iniciativa inspiradora em viagem ao Japão. Após algumas conversas com Komatsu, pude perceber o quanto o rumo da educação está alinhado entre as mais diferentes culturas. Durante o tempo que estive no país presenciei o quão diferentes de minha realidade são os hábitos e costumes de lá, no entanto, a busca  pela formação de um aluno mais autônomo é comum em vários países, distorcendo as fronteiras através da tecnologia e da troca de experiência em métodos educacionais que objetivam um aluno com habilidades e competências não garantidas pelos métodos mais tradicionais.
picturecorrect / Fotolia.comEnsino híbrido incentiva autoaprendizagem no Japão
 
A ideia do instituto nasceu em 2011 a partir da necessidade de complementar os estudos da escola tradicional que ainda seguem os preceitos curriculares do pós Segunda Guerra Mundial. Segundo Komatsu, esses preceitos foram extremamente eficazes para o país reerguer-se e tornar-se uma potência, no entanto, hoje o país é outro, possui uma diferente estrutura social e econômica e necessita de mudanças também na educação, já que a formação não atende às demandas atuais do país e do mundo.
A chave para a inovação no iPal foi a escolha do ensino híbrido Glossário compartilhado de termos de inovação em educação (blended learning, em inglês), conforme acredita o CEO ao afirmar que “este deve ser o caminho a ser seguido pela educação japonesa”. Esta tendência de ensino traz a aprendizagem centrada no estudante, levando em consideração seus domínios, interesses e objetivos e construindo, assim, um currículo individual e sob medida.
Komatsu frisou que o instituto não busca aumentar a quantidade de conhecimento de conteúdo no aluno, mas sim as competências direcionadas à autoaprendizagem e organização do próprio tempo. O grande objetivo do iPal é poder tornar os alunos capazes de estudar por si próprios a partir de motivações próprias e em qualquer lugar, mesmo sozinhos, em casa e sendo tentados por mil coisas que parecem mais divertidas.
Ele encontrou uma dificuldade comum entre seus alunos, que era a de organizar o próprio tempo e lidar com cronograma de atividades. Isso, para ele, é resultado da educação tradicional que acostuma o aluno a somente absorver dados  e não a pensar ou motivar-se sobre o que fazer. Como exemplo, a grade fixa curricular que descreve o que cada um precisa estudar de acordo com sua idade e série.
Estudando o Blended Learning, Komatsu projetou um sistema de rotação para o iPal e renomeou a sala de aula para “laboratório”. Lá, cada aluno estuda individualmente o conteúdo on-line, pratica exercícios offline (podendo até utilizar papel e caneta) e, caso possua dúvidas, marca um horário presencial com seu tutor. Esse ciclo é repetido sempre com a inclusão de novos conteúdos ou reforço. Além disso, para investir no desenvolvimento da autonomia, não há um cronograma fixo de tarefa e horários: os próprios alunos montam seu calendário e devem agir com responsabilidade e organização com o que se comprometem.
Com essa abordagem pedagógica, os alunos passaram a ver mais sentido no que estão aprendendo, pois o aprendizado é mais personalizado às necessidades de cada um. Para auxiliar no método, Komatsu utiliza um ambiente on-line japonês, que possui objetos de aprendizagem combinados com a ferramenta gratuita de calendário do Google. A escolha do ambiente on-line foi determinada pela língua japonesa.

POR PAULA FURTADO

Por Paula Furtado
Pesquisadora (mestranda) em Linguística Aplicada e Tecnologia pela Unicamp, professora, designer instrucional e co-fundadora da Escola Mupi.
http://porvir.org/porfazer/ensino-hibrido-incentiva-autoaprendizagem-japao/20140922

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Letras impressas ou voadoras


Escrito por Anna Veronica Mautner

A escola, essa de fileiras, a tradicional, em que cada um tem o seu lugar de sentar, melhor falando, cada um tem a sua carteira de frente para a lousa e a mesa do professor, essa escola é mais de ouvir do que de ver. A paisagem que cada um de nós vê na sala de aula é cansativamente monótona por horas e horas. Eventualmente, conteúdos mudam no quadro-negro. Em nossa frente, a mesma nuca, o mesmo colega. Poderíamos dizer que essa escola é a escola sonora. O humor e a surpresa ficam praticamente ausentes.
Há muitas décadas, os professores anunciavam quando “dariam um ponto novo”. O tal do ponto novo era esperado. A escola não era amada, não despertava paixão. O tédio era a sensação dominante. Era tão monótona que até inspirou um programa de rádio. Em meio a uma liberdade maior, a Escola risonha e franca era um programa diário de rádio no qual Dona Olinda era a professora e cada aluno tinha uma personalidade, um jeito de ser.
Já na escola de verdade tínhamos que ser todos iguais. O diferencial era a nota que se conseguia e o comportamento. Havia nota de comportamento, sim. Mexer-se muito na cadeira dava nota baixa de comportamento no boletim. A carteira era uma prisão, na qual o aluno tinha que fingir interesse por um conteúdo pouco interessante. Alguns professores excepcionais conseguiam minimizar o peso do tédio.
Hoje não podemos imaginar que crianças de 6 a 10 anos, por exemplo, consigam ficar ouvindo e fazendo coisas “chatas”. Hoje os olhos das crianças estão acostumados a ver movimentos ininterruptos dos jogos eletrônicos, da televisão. A postura é parecida: a criança fica parada e a máquina traz imagens em movimento, sem parar.
Não posso imaginar o que vai acontecer com as mentes criadas à vista de movimento com o corpo parado. Qual será a consequência disso? Ainda está em gestação a primeira geração com essa nova condição. Em casa, televisão e joguinhos. Na escola, tablets e outros recursos para atrair o olhar.  Conteúdos sempre em movimento são apresentados aos corpos parados. Antes, era corpo parado diante de conteúdo parado. Agora, o olho vê movimentos, aproximações, afastamentos e sons.
E o que vai acontecer com as nossas bibliotecas de livros impressos, cujo conteúdo não está nas nuvens?  Estamos vivendo um momento de diluição do livro-objeto. O livro-objeto que enfeita as prateleiras torna-se cada vez mais objeto e menos fonte de informação. Ninguém quer que o livro desapareça, apesar de recorrer cada vez mais ao conteúdo eletrônico.
Vivemos em um momento de muita dificuldade: ainda queremos que a escola tenha biblioteca e que ela seja eletronicamente equipada. Que bom que ainda temos os dois! Ainda é notícia de jornal a existência de bibliotecas nas escolas, assim como é notícia também o quanto de recursos eletrônicos estão disponíveis nas mesmas escolas. Um não substitui o outro. Um não rouba espaço do outro. Existe uma especificidade sensorial no livro impresso e uma mental no livro eletrônico. O conteúdo pode até ser o mesmo.
Este é o momento que nós vivemos: a superposição dos dois recursos para acessar conteúdo. Um a gente apaga, outro a gente guarda. Um a gente guarda na nuvem, outro a gente guarda na estante. Parece que ficamos mais ricos. Será?

http://www.profissaomestre.com.br/index.php/colunistas-pm/anna-veronica/904-letras-impressas-ou-voadoras

terça-feira, 29 de abril de 2014

Especialistas defendem integração do ensino convencional à educação online

Fernanda Cruz
Da Agência Brasil, em São Paulo



Um encontro voltado a debater novos modelos de ensino reuniu hoje (28), na capital paulista, especialistas no assunto, vindos de várias partes do mundo. Educação híbrida, liberdade no ensino e aprendizagem online foram alguns do temas discutidos durante esta manhã no evento Transformar, que está em sua segunda edição.
Michael Horn, bacharel em história pela Universidade de Yale e formado também na Universidade de Harvard, integra o ranking da revista Tech&Learning das 100 pessoas mais importantes quando se trata de tecnologia na educação. Horn acha que o ensino atual mantém um modelo ultrapassado, semelhante à produção em uma fábrica do início do século passado, no qual as crianças são divididas em turmas conforme a faixa etária e recebem um ensino padronizado. "O mundo mudou, cada criança precisa de um modelo que maximize cada uma. As pessoas aprendem de maneiras diferentes, ritmos diferentes", disse ele.
A proposta do especialista é que as escolas utilizem o ensino híbrido, ou seja, inserir a aprendizagem online no contexto das aulas convencionais. "A criança pode progredir no seu próprio ritmo, e personalizar a educação". A ideia é tornar o conteúdo mais envolvente e interessante para o aluno, por meio de games e simulações, por exemplo.
O modelo virtual já foi testado em escolas norte-americanas, entre elas uma em Los Angeles, na Califórnia, onde 90% dos estudantes são carentes. Na escola, uma das melhores do país, o professor não precisa montar uma aula capaz de atingir todos os alunos em sala de aula de uma vez só. "Esse modelo não faz sentido para o aprendizado", destacou.
O brasileiro Luís Junqueira, formado em letras pela Unicamp, acredita que a escola tem que dar liberdade e confiar na autonomia do aluno. O projeto Primeiro Livro, que ele desenvolve, dedica tempo das aulas de língua portuguesa para que o estudante escreva o seu próprio livro de ficção. O objetivo é elaborar uma plataforma virtual que concentre essas publicações, e permita que as crianças interajam.
Luís conta que obteve resultados excelentes na Escola do Sítio, em Campinas, onde o Primeiro Livro existe desde a década de 80, e na Escola Castanheiras, onde o projeto começou em 2009. "As dúvidas gramaticais dos alunos surgem a partir do livro que eles estão escrevendo", disse. Além disso, com a ajuda da tecnologia, as crianças podem sanar suas dúvidas assistindo a videoaulas.
Zach Sims, eleito uma das 100 pessoas mais influentes pela revista Time de 2013, contou a sua experiência na fundação do projeto Codecademy, criado para estimular o aprendizado de linguagem de programação. Enquanto fazia a graduação em ciências políticas na Universidade de Columbia, Zach percebeu que a maioria dos seus colegas estavam insatisfeitos por gastar dinheiro com um aprendizado que não importava para a sua vida profissional.
"Passei um verão aprendendo sozinho a como programar e aprendi com os meus próprios erros. Isso funcionava mais do que se eu ouvisse os conceitos e tentasse aplicá-los. Enfrentando problemas, consertando erros, você aprende mais", declarou.
Zach decidiu criar o site www.codecademy.com, uma plataforma gratuita para ensinar programação de uma maneira simples e, assim, ajudar quem também tem interesse em aprender. "Fizemos de um modo fácil para todo mundo, para [os interessados] não ficarem amedrontados". Na contramão do imaginário da maioria das pessoas, que acreditavam que programação é algo difícil e que não desperta grande interesse, o site teve 200 mil inscrições apenas no segundo dia de funcionamento, lembrou Zach.
"Ninguém sabia dessa demanda, muitas crianças se inscreveram. O site é como um jogo, legal, divertido e envolvente. A programação é a linguagem do século 21", garantiu.

http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/04/28/especialistas-defendem-integracao-do-ensino-convencional-a-educacao-online.htm

Declaração para um novo ano

20 para 21  Certamente tivemos que fazer muitas mudanças naquilo que planejamos em 2019. Iniciamos 2020 e uma pandemia nos assolou, fazendo-...