sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Defesa da formação continuada é destaque na abertura do I Seminário Internacional de Boas Práticas em Gestão Escolar

O fortalecimento e o aprimoramento da educação brasileira foram a tônica da abertura do I Seminário Internacional de Boas Práticas em Gestão Escolar, que começou nesta quinta-feira 14/8, em Brasília. O evento é uma realização do Conselho Nacional de Secretários de Educação - Consed em parceria com o Ministério da Educação, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a Embaixada Americana, o Conselho Britânico e a Fundação Telefônica.

Integraram a mesa de abertura a presidente do Consed, Maria Nilene Badeca, a secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (representando o ministro Henrique Paim), Maria Beatriz Luce, a adida de Imprensa da Embaixada Americana, Arlissa Reynolds, a diretora adjunta de Educação do Conselho Britânico, Fernanda Medeiros e a diretora de Assuntos Sociais da Fundação Telefônica, Mariana Balboni.
Para Beatriz Luce, a realização do seminário é um dos exemplos de atividades de formação continuada que valorizam os professores no país, de acordo com a secretária “para enfrentar o desafio  em superar as desigualdades educacionais, é preciso a compreensão coletiva da formação continuada”, motivo apontado por Mariana Balboni, ao elencar as razões para apoiar o seminário e o trabalho desenvolvido pelo Consed  “apoiar o processo de transformação da educação brasileira, é um dos principais motivos que levam a Fundação Telefônica a continuar parceira das ações promovidas pelo Consed”, ressaltou.
Já para a representante do Conselho Britânico, Fernanda Medeiros “fomentar as relações culturais, educacionais entre o Brasil e a Grã Bretanha e a troca cultural é a base que fortalece a parceria com o Consed”. A troca cultural também foi apontada pela representante da Embaixada Americana, Arlissa Reynolds, “somos parceiros desde a criação do PGE, pois acreditamos que o Prêmio estimula uma troca de conhecimento e práticas educacionais, além de uma rica experiência profissional, cultural e educacional”.
A presidente do Consed enfatizou que as parcerias com os diversos atores da educação brasileira, no intuito de ampliar possibilidades e iniciativas para a educação de qualidade e tem buscado oportunidade de estimulo e compartilhamento de boas práticas. E ressaltou que a realização do Seminário tem como objetivo “proporcionar um momento e um espaço para o diálogo com troca de experiências e a reflexão sobre os avanços, dificuldades e desafios da Escola Pública”, finalizou Maria Nilene Badeca.
Seminário Internacional de Boas Práticas - Dividido entre palestras e oficinas, o Seminário ocorre até sexta-feira, 15/8, e conta com a participação dos diretores que foram destaques estaduais no ano de premiação do PGE (2013), os coordenadores estaduais do prêmio, os secretários Estaduais de Educação e os superintendentes da área pedagógica dessas secretarias, além dos parceiros do Consed que viabilizam essas iniciativas. Conta, também, com a participação de gestores de escolas americanas que estarão no Brasil para visitar escolas e demais espaços educativos em vários estados, como parte do programa de intercâmbio promovido pela Embaixada Americana.


http://consed.org.br/index.php/comunicacao/noticias/883-defesa-da-formacao-continuada-e-destaque-na-abertura-do-i-seminario-internaciona-lde-boas-praticas-em-gestao-escolar

Olimpíada da Língua Portuguesa: Prazo para textos da olimpíada é estendido até domingo, 17

O prazo para envio dos textos para a Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, edição 2014, foi estendido até a meia-noite de domingo, 17. As escolas participantes devem enviar on-line, até essa data, os textos escolhidos para a etapa seguinte, a municipal.
Em todo o país, 46.902 escolas públicas com turmas do quinto ano do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio cumprem agenda comum, com foco na língua portuguesa. O tema em todos os gêneros literários é O Lugar onde Vivo.
A seleção das obras, pelas equipes de cada escola, constitui a primeira de quatro etapas da olimpíada. Dados do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), entidade que coordena o concurso, mostram que o evento envolve 170 mil professores de língua portuguesa de 46.902 escolas das 27 unidades da Federação. Dos 5.565 municípios brasileiros, 5.014 aderiram, o que representa 90,1% do total.
Os textos selecionados são digitados em campo próprio, no portal da olimpíada, e seguem para a segunda fase, no âmbito do município. A terceira etapa é a estadual e a quarta, a regional.
Gêneros — Na fase regional, é promovido o encontro entre os melhores autores e os professores, por gêneros literários. Cada gênero terá 125 alunos, 125 professores e a equipe que vai trabalhar com eles. As reuniões por categoria serão realizadas em São Paulo, Recife, Porto Alegre e Campo Grande, no período de 28 de outubro a 20 de novembro próximo. Nesses encontros são escolhidos os 20 textos finalistas, cinco por categoria. A reunião nacional será realizada de 24 a 28 de novembro. A premiação, em 1º de dezembro, em Brasília.
Os 20 estudantes e seus professores receberão medalhas, notebooks e impressora. As escolas dos ganhadores terão direito a dez microcomputadores, impressora, projetor multimídia, telão para projeção e livros.
Mais informações na página da Olimpíada de Língua Portuguesa na internet.
Assessoria de Comunicação Social

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=20678

Estudantes de VG criam aplicativo para celular

O que para muitos professores é um problema,  na Escola Estadual Domingos Sávio Brandão Lima, em Várzea Grande, é um aliado. O uso de celular em sala de aula é uma tecnologia integrada à educação. A iniciativa da professora de Geografia, Elena Pires, além de tornar as aulas mais atrativas, revelou o lado criativo dos alunos. Com o apoio da educadora e suporte de um ex-aluno, que hoje cursa Técnico em Informática, os estudantes criaram um aplicativo com os pontos turísticos de Mato Grosso. A história, a localização, lendas urbanas do Estado, tudo disponível em uma ferramenta totalmente grátis e que pode ser baixada de qualquer celular.
O aplicativo “DS Pontos Turísticos” começou a ser elaborado pelos alunos do 8° ao 9° ano do Ensino Fundamental- na faixa de 13 a 15 anos-  no dia 4 de junho. A professora conta que a ideia surgiu influenciada pela explosão tecnológica e por cada vez mais os alunos terem um celular. “O celular era meu grande problema em sala de aula, pensei se não posso com ele, junto-me a ele. Você acha que muitos alunos conheceriam as histórias, os locais se não fossem desta forma”, questiona a professora. Segundo ela, a ideia é expandir o trabalho e integrá-lo a disciplina de Inglês.
Luiz Felipe Togo, considerado amigo da escola, está dando suporte ao desenvolvimento do aplicativo. “A ideia era desenvolver um aplicativo gratuito e acessível aos alunos. Usamos como base uma ferramenta da internet que permite inserir fotos, informações, e outros”, diz.
Em conjunto com o aplicativo, os alunos também integraram outras ferramentas tecnológicas para auxiliar a aprendizagem. Facebook, site e blog também estão no dia a dia da escola. As redes sociais são utilizadas para a postagem das matérias referentes às aulas, informativos da escola e grupos. Outra função do celular utilizada pela professora é fotografar  o conteúdo da aula e publicar nos meios para que todos tenham acesso.
“A aula está muito mais prazerosa, podemos fazer pesquisas através do celular, percorremos o Brasil inteiro em um clique. Temos os conteúdos disponíveis. É legal ver a professora se integrando ao invés de esquivando”, diz o aluno do 7° ano, Pedro Henrique Moid de Araújo.
O professor Amauri Alves,  diretor da escola, classifica a ideia como inovadora. “É diferente, é louvável o uso de celular para a educação. Temos que nos integrar, pois a tecnologia esta aí. Tanto que até mesmo com os pais estamos mudando. Passamos a adotar com eles a comunicação através de e-mails, facebook, afinal temos que nos aprimorar”, diz. A escola tem atualmente cerca de 600 alunos do Ensino Fundamental.
Para conhecer um pouco mais os trabalhos dos alunos clique aqui.

http://www.seduc.mt.gov.br/conteudo.php?sid=20&cid=14527&parent=20

Crianças e sociedade de consumo

Nossos alunos devem aprender a pedir mais carinho e menos coisas
Assim como os músculos, o cérebro também precisa ser exercitado, treinado, capacitado. Nós não nascemos virtuosos, nascemos egoístas, individualistas, até para que possamos sobreviver. Um bebê tem de chorar alto para poder ser visto, cuidado, notado. É também por isso que a natureza nos deu na infância essa coisa maravilhosa que é a espontaneidade, essa capacidade de criar e se divertir com o simples. 
Atualmente, as crianças ganham uma quantidade absurda de brinquedos e coisas. E muitas vezes à custa do endividamento da família. Só que a conta do consumo desenfreado, quando chega, gera violência, tristeza, estresse. Precisamos ensinar aos alunos que, além de o fato de ter tudo levar a não querer nada, com o "pede, pede, pede" estão contribuindo para o estresse dos pais. Eles devem aprender a pedir mais carinho e menos coisas. 
Hoje, temos tantas identidades, exercemos uma multiplicidade de papéis, que, se não tomarmos cuidado, acabaremos nos perdendo, sem saber de fato quem somos. Então, surge o efeito "manada": fazemos o que todo mundo faz , sem qualquer reflexão. Ficamos sem saber o que vai ser do nosso futuro e morremos de medo. 
As propagandas nos vendem mil e uma coisas, enquanto os noticiários nos bombardeiam com notícias ruins. Na sociedade de hiperconsumo, a grande meta de muitos dos meios de comunicação de massa é tornar nossa vida negativa para que compremos tudo que nos vendem ou nos iludir com coisas que nos tornariam melhores. 
De acordo com Nicholas Carr, autor do livro "A Geração Superficial", que explica o que a internet está fazendo com o nosso cérebro, estamos virando pessoas "panqueca", que sabem de tudo, mas não sabem de nada, porque só vamos até a terceira linha dos textos que lemos na internet. E isso acontece com todos nós, não só com os alunos. 
Nesse processo, abrimos mão de coisas muito importantes, que são os valores, a sabedoria, a profundidade, o tempo. Ficamos o tempo todo na urgência. Mas podemos - e devemos - viver melhor. Devemos acreditar nas pessoas, que são falíveis, mas construídas no processo.
Todos podemos melhorar, não temos de ser perfeitos, mas precisamos ter compromisso com o empreendedorismo ético. As pessoas devem se comprometer a servir à sociedade, à família, à nação e ao mundo do melhor jeito que podem. Não queremos a perfeição, mas queremos a pureza de intenção. 

LEO FRAIMAN

Leo Fraiman é psicoterapeuta, escritor e palestrante. É autor da Metodologia OPEE, adotada atualmente por mais de 150 escolas em todo o Brasil, e também do livro "Como Ensinar Bem", pela Editora OPEE, além de outros títulos publicados nas áreas de Orientação Profissional, Familiar e de Educação. Site: leofraiman.com.br
http://educacao.uol.com.br/colunas/leo-fraiman/2014/08/14/criancas-e-sociedade-de-consumo.htm

Inovações em práticas e políticas educacionais é tema de evento

Uma destinação maior de recursos associada a uma gestão efetiva constituem o segredo para que a educação avance mais no país. Esta foi uma das conclusões da sessão de abertura do seminário Inovações em práticas, gestão e políticas educacionais, promovido nesta quinta-feira, 14, pela FGV Projetos, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Ministério da Educação.
O ministro da Educação, Henrique Paim, destacou os avanços empreendidos nos últimos anos do ponto de vista de estruturação, planejamento e gestão da educação no Brasil. Um exemplo, citou Paim, foi a construção de um sistema de avaliação e de estatísticas educacionais que permite identificar onde estão os problemas e traçar alternativas para atingir melhorias, em referência ao Censo da Educação Básica.
O ministro ressaltou ainda o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), prova anual que oferece acesso à educação superior e a inúmeras outras oportunidades educacionais. “A consolidação dos sistemas de avaliação e de estatísticas funciona como base para inovarmos e formularmos políticas de acordo com as necessidades do país”, disse.
Em paralelo, Paim lembrou que houve acréscimo nos recursos destinados ao setor, graças ao aumento do orçamento do MEC, a projetos que conseguiram convencer governantes a investir mais na área, além de um conjunto de mecanismos perenes para financiamento, a exemplo do Fundo de Desenvolvimento e Manutenção da Educação Básica (Fundeb).
Conforme o ministro, tão importante quanto o financiamento é prosseguir no aperfeiçoamento da gestão. “Já avançamos muito neste sentido, a exemplo da implantação do sistema de compras públicas compartilhadas com municípios e estados, que proporcionaram economia, transparência, rapidez e padronização no controle de qualidade”, afirmou.  “Criadas as condições mínimas, o MEC tem que assumir um papel de coordenação em torno da aprendizagem, da questão curricular e da formação dos professores”, disse Paim.
Inclusão – A necessidade de mais iniciativas para ampliação e fortalecimento do ensino básico foi defendida pelo presidente da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Carlos Ivan Simonsen Leal. “Não podemos manter a disparidade que existe no ensino básico. O Brasil já andou muito nesta área, mas precisa avançar mais”, disse Leal.
Para o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, a educação básica é o melhor instrumento de inclusão. Há seis anos a Capes passou a atuar também na qualificação da educação básica, estimulando e otimizando associações da pós-graduação com os ensinos fundamental e médio. “Temos um conjunto de ações com o foco nos estudantes de licenciatura”, disse Guimarães.
Entre essas ações está o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), que conta com 90 mil bolsistas estudantes de licenciatura, futuros professores. De acordo com o presidente da Capes, o plano é chegar a 100 mil bolsas, que é o número de professores da educação básica que se aposentam por ano no Brasil. Outra iniciativa é o Programa de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), que conta hoje com a participação de 57 mil professores de escolas públicas.
Assessoria de Comunicação Social

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=20681

UNEMAT: Alunos de Medicina decretam greve por falta de estrutura

Eles reclamam da falta de bloco próprio, laboratórios, professores e materiais

Divulgação


Alunos do curso de Medicina da Unemat denunciam precariedade de curso no campus de Cáceres
LISLAINE DOS ANJOS
DA REDAÇÃO
Os alunos do curso de Medicina da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), em Cáceres (225 km a Oeste de Cuiabá), entraram em greve por tempo indeterminado, na quarta-feira (13), alegando falta de estrutura, como livros, professores, salas de aulas e laboratórios.

"Desde o início, ocorreram problemas como ausência de professores, materiais e até dificuldade em entrar nos hospitais para consolidar o aprendizado"



A Unemat inaugurou o curso de Medicina em agosto de 2012, com oferta de 30 vagas por semestre.

No entanto, desde o início, a reclamação dos alunos é constante por falta de material e quanto à metodologia de ensino, o que gerou conflito entre discentes e a reitoria e fez com que a precariedade do curso fosse veiculada na imprensa nacional – leia mais AQUI.

Os estudantes divulgaram um manifesto pedindo à reitoria e à coordenação do curso por soluções emergenciais e afirmam, por meio de nota enviada à imprensa e no blog do manifesto, que não receberam nenhum posicionamento e que não há como prosseguir com os estudos nas condições atuais.

“Desde o início, ocorreram problemas como ausência de professores, materiais e até dificuldade em entrar nos hospitais para consolidar o aprendizado. Após diversas tentativas de conciliação com os responsáveis pelo curso e pela universidade, os discentes de todos os períodos optaram pela greve total do curso com retorno apenas quando suas deficiências forem sanadas”, diz trecho de publicação dos alunos no blog.

Divulgação
Estudantes protestaram em frente à área que seria usada para construção de prédio do curso de Medicina
Segundo os estudantes, eles não contam com um prédio próprio e precisam dividir as salas de aulas com os alunos dos cursos de Educação Física e Agronomia, o que resulta em falta de espaço e de laboratórios para a execução das atividades de todos os cursos.

Manifestos
Na manhã desta quinta-feira (14), os alunos fizeram um protesto no campus da sede da Unemat, que contou com a presença da coordenadora e assessora do curso.

Os estudantes ainda fizeram um manifesto em frente ao local onde o prédio do curso de Medicina deveria ter sido erguido ,e devem realizar um novo ato em frente à reitoria.

Outro lado

MidiaNews tentou contato com a reitoria da Unemat, mas, até a edição desta matéria, não foi possível.

http://www.midianews.com.br/conteudo.php?sid=3&cid=206876

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Responsabilização através do Ideb


O artigo abaixo foi escrito por Renan Pieri, doutorando em Economia pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e consultor em Avaliação de Políticas Públicas. O tema abordado por Renan é de extrema importância no momento atual, já que o Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado em junho deste ano pela presidente Dilma Rousseff, atrela o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) a políticas de incentivo financeiro para professores, diretores, e outros membros da comunidade escolar. A entrevista com o pesquisador, que esclarecerá alguns pontos abordados por ele no texto, será publicada em breve.  
Responsabilização através do Ideb
Renan Pieri*
Com o intuito de melhorar a qualidade educacional, duas agendas foram introduzidas no Brasil a partir dos anos 90: a municipalização do Ensino Fundamental e a introdução de sistemas de accountability (ou, em português, responsabilização), graças à criação do Fundeb. A partir de dados coletados na Argentina, os pesquisadores Galiani, Gertler e Schargrodsky[1] mostraram que escolas em municípios com ambiente institucional menos favorável (mais corrupção e menor capacidade de gestão dos recursos) tendem a ter resultados piores em estruturas escolares descentralizadas, enquanto se observa evolução em municípios com maior aparato gerencial. Surge, então, a necessidade de se criar parâmetros de avaliação quantitativa em larga escala a fim de se fazer uma avaliação sobre quais redes precisam melhorar suas práticas e quais tem tido melhor desempenho. Nesse sentido, foram criados o Saeb, Enem, Prova Brasil e, enfim, o Ideb em 2007. 
Todavia, o Ideb não traz na sua concepção o ponto mais polêmico de um “sistema completo” de accountability: a responsabilização de diretores e professores através de benefícios e/ou punições, sobretudo financeiras através de pagamentos de bônus. Carnoy e Loeb (2002) apontam que nos EUA “pré-lei No Child Left Behind" de 2001, somente os estados que adotaram os mecanismos de bônus conseguiram obter efeitos positivos sobre qualidade escolar provenientes de seus sistemas de accountability
A discussão sobre o uso do Ideb como critério para pagamento  de bônus ganha ênfase com a Estratégia 7.36 aprovada recentemente no Plano Nacional de Educação. A estratégia deixa no ar que os municípios terão que adotar práticas para melhorar o Ideb, o que consequentemente traz a tona a possibilidade de adoção de pagamento de bônus a professores e diretores conforme o desempenho das escolas no Ideb. A adoção de remuneração variável no pagamento é prática recorrente no setor privado e há diversas evidências que se devidamente arquitetado traz benefícios não só para a eficiência das empresas mas para a própria autoestima dos funcionários. Entretanto, usar o Ideb como instrumento único para pagamento de bônus tem diversas limitações. 
Primeiramente, há a discussão de como se estabelecer essas metas. Como bem explicou o economista Ernesto Martins Faria em outro artigo para o mesmo blog, as metas para o Ideb foram computadas através de uma função logística considerando apenas o Ideb de 2005 para estabelecimento dos parâmetros da função. Obviamente, isso criar diversas distorções uma vez que o índice ainda estava sendo estabelecido (as pessoas nem o conheciam em 2005 e certamente podem mudar de comportamento à medida que se preocupam com o Ideb) e por não levar em conta disparidades regionais.
Outro fator deriva da natureza do próprio índice. O Ideb é padronizado para ser um número de 0 a 10. Como todo índice, tem a função de ranquear as unidades observadas conforme algum parâmetro. Segue dessa padronização que o Ideb não tem interpretação cardinal, ou seja, ter um Ideb 5,6 ou 6 não traz em princípio nenhuma informação sobre a qualidade do ensino na escola, exceto pelo fato que 6 é maior que 5,6. 
Consequentemente, traçar metas em termos absolutos do Ideb parece ser pouco informativo em relação aos métodos que as escolas devem adotar. Um problema ainda maior em relação ao índice é sua concepção probabilística. Por definição, a nota na Prova Brasil e, por conseguinte, o Ideb são aproximações da verdadeira qualidade educacional que se quer captar. Assim, embora haja forte correlação entre o Ideb e a qualidade do ensino na escola, uma escola que tenha piora de 0,1 no Ideb não necessariamente teve uma redução da qualidade do ensino, da mesma forma que escolas que obtém um pequeno aumento no índice não necessariamente adotou alguma prática edificante.
Por fim, o maior dos problemas em se ter uma meta única de qualidade é a diferença de insumos escolares entre as escolas. Escolas que tem pior Ideb possivelmente tem práticas menos eficientes, mas também tem infraestrutura de pior qualidade, alunos com nível socioeconômico menor e professores com pior formação. É preciso separar o joio do trigo na hora de apontar quais escolas tem conseguido obter bom desempenho dentro de sua realidade.
Tudo isso não diminui a importância de termos avaliações que mapeiem a rede e pontuem falhas na gestão e distribuição de recursos. O Ideb é um avanço! Mas quando este passa a bonificar salários, suas limitações passam a ser mais relevantes. Acredito que o índice seria mais informativo se estivesse dividido em alguns conceitos ao invés de ser numérico. E a discussão sobre bônus não pode ser feita sobre um índice único, como não é feita em nenhuma grande empresa!
Saiba Mais
A divulgação do Ideb pode surtir efeito sobre o ambiente de ensino por meio de outros mecanismos. Como mostrei na minha dissertação “Qualidade da educação traz votos? Um estudo sobre a importância do IDEB nas eleições municipais”, artigo depois co-autorado pelos professores Sergio Firpo e André Portela, em municípios em que há aumento do IDEB o prefeito aumenta em até 5 pontos percentuais sua probabilidade de reeleição. Tal fato evidencia que existe demanda por qualidade da educação e o canal de pressão política pode ser eficaz em criar estímulos para melhorar a qualidade escolar mesmo sem responsabilização direta.
*Renan Pieri é doutorando em Economia pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e consultor em Avaliação de Políticas Públicas. 

[1] Galiani, S., P. Gertler and E. Schargrodsky. 2008. “School Decentralization: Helping the Good Get Better, but Leaving the Poor Behind.” Journal of Public Economics.

Vem aí o IDEB 2013

Terminou neste dia 13/08 o prazo para as escolas questionarem os dados da Prova Brasil-2013, disponibilizados de forma preliminar exclusivamente às escolas.

Portanto, assim que o INEP analisar os recursos serão publicados os resultados do IDEB 2013. 

Vejam no quadro abaixo como foram os resultados de Cuiabá, até 2011. Observem que em 2011 já foram atingidos os índices projetados pelo INEP/MEC para 2013. 

E agora? Como será?

Como ocorre com toda avaliação, é grande a expectativa para se saber a proficiência obtida pelos alunos em Português e Matemática no anos iniciais e/ou nos anos finais. 

De qualquer forma, seja qual for o sabor do resultado, sempre deve provocar um saber. 

Afinal,  uma avaliação é sempre uma oportunidade para a reflexão. 



Avaliação de professores na berlinda

Nos Estados Unidos, críticas à utilização dos resultados obtidos por estudantes na avaliação de professores colocam esse método novamente em xeque


Professora na rede pública de Washington D.C.: eles agora não são mais avaliados pelos testes de seus alunos

Beatriz Rey, de Syracuse (NY)
Em junho de 2014, a rede escolar de ­Wa­shington D.C., uma das primeiras dos Estados Unidos a utilizar os resultados obtidos por estudantes em testes padronizados na avaliação de seus professores, anunciou que abandonaria essa prática. A decisão, tomada por conta de complicações que acompanharam a introdução de testes ligados ao novo parâmetro curricular do país (o Common Core State Standards), coloca esse método de avaliação docente novamente em xeque. Além dos próprios docentes, que consideram injusta a aferição de seu trabalho feita exclusivamente com base nos resultados das provas, há resistência à prática por parte de pesquisadores, da Associação Norte-Americana de Estatística, dos sindicatos de professores, e até mesmo da Fundação Bill e Melinda Gates, que investiu mais de US$ 200 milhões para implementar os padrões curriculares do Common Core.
Trajetórias de aprendizagem
O coro é especificamente contra o uso irrestrito dos chamados Value-Added Models (VAMs), um dos métodos de avaliação docente mais difundidos no país. O VAM é usado por formuladores de políticas públicas para avaliar o impacto de distritos educacionais, escolas e professores na aprendizagem dos alunos (medida pelo resultados de provas padronizadas feitas pelos estudantes). Esses métodos estatísticos permitem uma análise mais enriquecida dos resultados de provas padronizadas porque grupos de estudantes são “seguidos” para que suas trajetórias de aprendizagem sejam examinadas ao longo do tempo em diferentes anos escolares, com professores, escolas e distritos educacionais distintos. Trocando em miúdos, professores, distritos educacionais e escolas são avaliados pelo crescimento apresentado pelos alunos nos resultados de testes padronizados.
Para entender a importância dos VAMs e o porquê da resistência que se formou contra eles, é preciso fazer uma viagem No tempo. Aprovada pelo ex-presidente republicano George W. Bush em 2001, a lei No Child Left Behind (NCLB ou Nenhuma Criança Deixada para Trás) instituiu a primeira política de meritocracia mais importante do país ao estabelecer que todos os estados norte-americanos deveriam ter 100% de seus alunos proficientes em matemática e leitura até o final do ano acadêmico de 2014 (o que não ocorreu). O desempenho dos estudantes passou a ser aferido anualmente por testes padronizados (que não eram necessariamente os mesmos em diferentes estados) aplicados entre os 3º e 8º anos do ensino fundamental e em um ano do ensino médio. A cada ano, os resultados eram comparados com os dos anos anteriores e enquadrados nos níveis de proficiência definidos por cada estado. Assim verificava-se se as escolas apresentavam crescimento adequado ou não para chegar aos 100% de proficiência nas duas áreas do conhecimento. Essa “metodologia” de coleta de dados e análise do desempenho dos alunos desembocava em uma métrica chamada Avanço Anual Adequado (em inglês, Adequate Yearly Progress, ou AYP), que era usada para responsabilizar os atores educacionais na era da lei NCLB.
Foi nessa mesma época que foi criado o precursor de um dos VAMs mais utilizados no país: o Education Value-Added Assessment System (Sistema de Valor Agregado em Educação, ou Evaas), vendido pela empresa SAS. Desenvolvido pelo pesquisador William L. Sanders na Universidade do Tennessee em Knoxville, o Tennessee Value-Added Assessment System (Tvaas), implementado no estado do Tennessee em 1993, foi vendido em 2000 à empresa SAS, que hoje comercializa o Evaas.Quando o presidente democrata Barack Obama instituiu a segunda política de meritocracia mais importante do país – o Race to the Top (RTTT ou Corrida ao Topo) – em 2011, o Tvass/Evaas já era usado no Tennessee há mais de 20 anos. O estado foi um dos dois escolhidos para receber o primeiro prêmio em dinheiro concedido pelo governo federal (o outro foi Delaware). O RTTT estimula a competição entre estados e/ou distritos escolares por recursos. Na prática, aqueles que instituem as políticas recomendadas pelo governo federal ganham pontos – quanto mais pontos, maior a chance de ganhar recursos.
VAM: os problemas
Em 2011, o Evaas foi adotado pela rede estadual da Carolina do Norte como o processo estatístico que examinaria o impacto de professores, distritos educacionais e escolas no aprendizado de seus alunos. Em artigos assinados por William Sanders e outros pesquisadores, o Evaas é definido como um modelo que permite o rastreamento das mudanças ocorridas ao longo do tempo nos resultados das provas padronizadas feitas por alunos e do impacto que têm distritos escolares, escolas e professores na evolução desses resultados. O sistema, que processa até cinco anos de dados, usa regressões lineares com modelos mistos que aceitam variáveis de controle complexas para analisar os dados das provas.
Passados dois anos da adoção do Evaas no estado, Dov Rosenberg, 36 anos, professor auxiliar de tecnologia na escola Rogers-Herr, em Durham e um dos organizadores do movimento Public Schools First North Carolina (Escolas da Carolina do Norte em Primeiro Lugar), diz que ainda não compreende totalmente como o desempenho docente é aferido. “Não sabemos como chegam ao resultado final. Recebemos um número e um valor correspondente em percentil, mas não sabemos de onde eles vêm”, desabafa.
O relato de Rosenberg encontra eco a milhares de quilômetros dali, na cidade de Tempe, no estado do Arizona. Durante os últimos seis anos, Audrey Beardsley, da Universidade Estadual do Arizona, identificou diversas limitações do Evaas – uma delas é exatamente a sua inacessibilidade para os profissionais da educação. “Quando os docentes recorrem aos gestores para entender melhor os resultados, invariavelmente escutam que nem os próprios gestores conseguem compreendê-lo”, diz Audrey, que escreveu diversos artigos sobre o tema e identificou outros problemas em relação ao Evaas.
Um deles é o fato de que, no modelo, controlam-se os fatores socioeconômicos dos estudantes apenas implicitamente. Em análises como essas, é importante descartar a possibilidade de que, por exemplo, o crescimento nos resultados das provas de um grupo de alunos se justifica pelo fato de que os pais das crianças têm renda familiar alta e podem investir mais na educação de seus filhos.
Segundo Audrey, ela foi a primeira pesquisadora a ter acesso a uma parte do banco de dados do Evaas. “O maior problema que eu encontrei foi o nível de flutuação dos dados. A chance de um professor ser considerado eficiente ou não no período analisado era de praticamente 50% porque não havia um padrão. Em alguns casos, os dados flutuavam tanto que deixavam de ser confiáveis”, relata.
Trazendo críticas semelhantes ao debate, a Associação Americana de Estatística, a maior organização de estatísticos e profissionais afins do país, publicou uma nota em abril de 2014 com diversas recomendações sobre o uso de modelos de valor agregado. A nota toca em uma limitação fundamental dos VAMs: em geral, eles medem o desempenho acadêmico dos estudantes usando apenas os resultados de provas padronizadas. Ben Schneider, cientista político e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, o Massachusetts Institute of Technology), diz que medir a performance acadêmica de estudantes é uma tarefa difícil porque há muitas facetas do processo de aprendizagem que devem ser incluídas em um índice de desempenho. “Por essa razão, sindicatos de professores, educadores e diretores de escola consideram os índices focados nas provas imperfeitos”, explica. O uso dos testes como medida única traz outro problema: o ensino focado nas disciplinas que são cobradas nas provas (“teach to the test”). Schneider usa como exemplo o caso da política de bônus por performance para docentes implementada no Chile, onde o índice de desempenho foi elaborado junto com os professores e, por isso, engloba diversos aspectos do trabalho docente. “Avalia-se o plano de ensino do professor, há uma avaliação do diretor da escola, e o desempenho dos alunos nas provas é um componente”, diz.
Efeitos da política: falta consenso
Se a métrica usada na política de meritocracia para docentes é complexa e polêmica, a confusão não é menor no que diz respeito ao impacto dessas políticas na aprendizagem dos alunos. Como o próprio Schneider lembra, citando um estudo realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com os dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) que identifica efeitos positivos do bônus por desempenho no Chile, o que se encontra é correlação, e não causalidade. Os próprios VAMs sofrem desse problema, já que são uma tentativa de atrelar o desempenho dos alunos ao trabalho dos professores e das escolas de maneira mais geral.
Matthew G. Springer, professor de política educacional da Universidade Vanderbilt, realizou diversos estudos que buscam aferir o efeito da meritocracia para professores na aprendizagem dos estudantes em estados como Tennessee, Texas e Nova York. Segundo ele, as evidências no meio acadêmico são escassas e mistas. Em geral, experimentos que comparam o desempenho de professores que estão sujeitos ou não às políticas de incentivo financeiro na aprendizagem de seus alunos encontram evidências positivas para a aprendizagem em países como Índia e Israel, e negativos nos Estados Unidos. Mas mesmo nos Estados Unidos, lembra o pesquisador, um estudo de curta duração conduzido na rede de Chicago, no estado de Illinois, já identificou ganhos em aprendizagem para os professores que recebiam bônus. “É preciso lembrar que há uma diferença contextual entre a Índia rural e os Estados Unidos. Os problemas aos quais os alunos estão submetidos são diferentes. Diria que nos Estados Unidos a prática de compensar os professores com dinheiro por melhoria em performance não é necessariamente eficiente e eficaz”, diz.
Entre os estudos que encontram impacto nulo da política em aprendizagem nos Estados Unidos, está o desenvolvido em 2010 pelo próprio Springer e outros colegas. Durante três anos, os pesquisadores compararam dois grupos de professores de ensino fundamental que lecionam matemática em Nashville, no Tennessee (um grupo recebia incentivos financeiros e outro não). A hipótese era de que um dos problemas da educação norte-americana era a ausência de incentivos para docentes, e que a oferta desses incentivos, sozinha, melhoraria o desempenho dos estudantes nas provas. Os resultados não confirmaram a hipótese, ou seja, não houve diferença no desempenho dos estudantes que estudaram ou não com docentes que receberam bônus.
Springer explica, entretanto, que não é correto generalizar os resultados e dizer que a política de incentivos como um todo não funciona. “Esse era um tipo específico de programa de bônus. Não podemos generalizar nada para além do contexto de um programa de bônus que olha para a performance individual dos docentes no Tennessee”, diz, lembrando que há outros tipos de políticas de incentivo financeiro que premiam escolas ou profissionais de educação de determinados anos escolares. O pesquisador também alerta para o fato de que alguns programas por desempenho implementados atualmente já usam diversas medidas para aferir a performance dos professores, e não só os resultados das provas padronizadas.
Ben Schneider, do MIT, sugere uma mudança no foco da discussão sobre meritocracia para docentes. Em um artigo publicado recentemente na revista acadêmica Governance sobre a política de incentivos financeiros no Chile, ele e Alejandra Mizala, da Universidade do Chile, analisam as reformas educacionais levadas a cabo ao longo dos anos pelo governo daquele país. Os autores lembram que, de todas os questionamentos feitos por docentes e estudantes nos protestos de 2011, apenas a política de incentivos financeiros não foi colocada em xeque. Na ausência de dados empíricos convincentes que relacionam a política implementada no país com o desempenho acadêmico dos alunos, ele sugere outro enfoque para análise. “O nosso argumento é que o impacto mais importante é no longo prazo, mudando a perspectiva de carreira dos professores. A partir da mudança na carreira, surge outra: começam a ser atraídos os melhores professores para os cursos de pedagogia. É por essa via de formação dos melhores professores que pensamos que essa política tem impacto maior.”
Saiba mais
Para saber mais sobre o artigo que trata da política de bonificação por desempenho no Chile publicado por Ben Schneider, do MIT, na revista acadêmica Governance, e a discussão no meio acadêmico norte-americano após a publicação da nota da Associação Norte-Americana de Estatística, acesse o blog Educação e Pesquisa do site da revista Educação:www.educacaoepesquisa.blog.br
Resistência na Carolina do Norte
Ao longo das últimas décadas, surgiram diversos movimentos de resistência contra as diversas políticas de meritocracia implementadas nos Estados Unidos. A crise financeira de 2008 também impulsionou a formação desses grupos, já que cortes orçamentários em educação promovidos por distritos educacionais ou governos estaduais passaram a fazer parte do cotidiano do meio educacional norte-americano.
Na Carolina do Norte, o movimento Public Schools First North Carolina (www.publicschoolsfirstnc.org), do qual o professor Dov Rosenberg faz parte, formou-se em fevereiro de 2013 e se manifesta contra as seguintes políticas: vouchers ou mecanismos similares de transferência de dinheiro público para o setor privado; uso excessivo e incorreto dos resultados obtidos por estudantes em testes padronizados; e estratégias educacionais que desconsideram o impacto da pobreza no sucesso acadêmico dos alunos (e que culpam escolas e professores por eventuais fracassos).
Desde 2013, uma série de manifestações conhecidas como “Moral Monday” tomam conta da Carolina do Norte. O objetivo é questionar as políticas conservadoras implementadas pelo governador republicano Pat McCrory, eleito em 2012, quando o partido também ganhou maioria no congresso estadual. O movimento Public Schools First North Carolina participou das manifestações – em julho de 2013, o corte no orçamento da educação do estado foi da ordem de mais de US$ 500 milhões.


O outro lado: SAS e o Evaas
Em nota enviada à Educação, John White, diretor do SAS-Evaas, afirma que apesar de o Evaas não fazer ajustes diretos em relação às variáveis socioeconômicas, o modelo as leva em consideração porque acompanha estudantes individualmente ao longo do tempo para que “cada aluno funcione como seu próprio controle”. Após citar dois artigos acadêmicos que dariam suporte a essa metodologia, ele afirma: “essa é uma decisão que deve ser tomada por nossos parceiros educacionais”. Sobre a inacessibilidade do Evaas para os professores da Carolina do Norte, White afirma que a empresa está preparada para trabalhar com a rede estadual e os docentes e que os resultados do Evaas “fazem parte de um boletim abrangente, que oferece informação acessível e que traz uma variedade de suportes para ajudar na interpretação e aplicação”. Segundo White, tanto os resultados dos alunos nas provas padronizadas quanto os dados gerados pelo VAM são propriedade dos “parceiros educacionais”, e a SAS não está autorizada a disponibilizar os dados para pesquisadores. Ele também ressalta que há redes que optam por divulgar essas informações. 
http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/208/artigo323848-1.asp

O caminho para os 10% do PIB


A sanção sem vetos do Plano Nacional da Educação inicia uma discussão sobre de onde virão os recursos adicionais, qual será a participação de cada ente federado e a viabilidade da meta de investimentos


Marina Kuzuyabu

Sancionado pela presidente Dilma Rousseff, o Plano Nacional de Educação (PNE) tem entre suas metas aumentar progressivamente os investimentos públicos em educação até chegar aos 10% do Produto Interno Bruto (PIB). A expansão dos gastos será necessária para financiar as outras 19 metas que precedem a do financiamento, entre elas: ampliar a oferta de educação infantil em creches de forma a atender, no mínimo, 50% das crianças de até 3 anos até 2020; universalizar a educação infantil na pré-escola para crianças de 4 a 5 anos até 2016; garantir a matrícula no ensino médio de 85% da população de 15 a 17 anos; e equiparar o rendimento dos professores com o de profissionais com escolaridade equivalente. A aprovação da meta de investimentos foi comemorada pela sociedade civil, mas o que o PNE não esclareceu é de onde virão os recursos adicionais e qual será a participação de cada ente federado.
“Será preciso um esforço muito grande por parte dos governos, já que o montante do PIB destinado à educação hoje é de 6,3%”, ressalta Tatiana Britto, consultora legislativa do Senado Federal. “Ninguém sabe ao certo como esse percentual
crescerá, mas quando se discute políticas públicas é assim: primeiro você define a prioridade e depois vai cavando espaço fiscal. A implementação do PNE será outra batalha”, ressalta.
Divisão do bolo
A implantação do Custo Aluno-Qualidade (CaQ) é um dos recursos mais importantes para viabilizar um real aumento dos investimentos, pois ele será usado como parâmetro para o financiamento da educação. Em vez de partir do bolo de recursos existentes e dividi-lo pelo número de alunos na rede pública, como acontece hoje, o governo partirá de um total de recursos ideais para prover às escolas um padrão mínimo de qualidade, como previsto na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), e aos professores, uma remuneração adequada. O governo tem dois anos para definir e colocar em prática o Custo Aluno-Qualidade Inicial e, progressivamente, reajustá-lo até a implementação do CaQ.
O ministro da Educação José Henrique Paim já informou que esses valores ainda precisam ser calculados, mas a Campanha Nacional pelo Direito à Educação fez uma estimativa considerando o custo dos insumos básicos para o atual número de alunos matriculados na rede pública (veja na pág. 30). “Agora haverá uma discussão em torno desses valores. É possível que o MEC apresente uma contraproposta”, diz José Marcelino de Rezende Pinto, presidente da Associação Brasileira de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca) e membro da Campanha.
Padrão mínimo
Nesse cenário, em que o ponto de partida será a garantia de um padrão mínimo para todas as escolas, a União terá de repassar um montante maior de recursos aos estados e municípios que não conseguirem atingir o valor estipulado no CaQ. Esse foi um dos pontos mais debatidos durante os três anos e meio de tramitação do PNE, pois atualmente o governo federal destina 18% da receita resultante de impostos (para estados e municípios, esse valor é de 25%) ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb), valor que inevitavelmente precisará ser expandido para 20% ou até 31%, segundo alguns cálculos. Essa perspectiva motivou o ministro da Fazenda Guido Mantega a declarar em 2012 que a destinação de 10% para a educação poderia quebrar o Estado brasileiro.
Opinião bem diferente tem Marcelino: “para um país cuja carga tributária, nas últimas duas décadas, saiu de 24% para 35% do PIB, sem que a educação se beneficiasse desse crescimento, entendemos que seja factível dar esse salto nos investimentos educacionais”. Uma das possibilidades que ele menciona é destinar um percentual da carga tributária total da União, e não apenas dos impostos. Outro meio é recorrer à captação de recursos. “Todo mundo fala que educação é investimento. Por que então não pensar em um desenho de financiamento com o BNDES?”, aponta.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicou em 2011 um estudo sobre as possíveis fontes de recursos para subsidiar o aumento dos investimentos. Segundo Jorge Abrahão de Castro, que na época ocupava a Diretoria de Estudos Sociais do Ipea e foi um dos colaboradores do levantamento, as alternativas listadas baseiam-se principalmente na ampliação de tributos. “Fizemos simulações e, como pesquisadores, mostramos que é possível expandir de forma racional a arrecadação do governo sem forçar a ‘barra’”, conta.
Entre as ações, está diminuir a concessão de isenções e reduções do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) pelos municípios de modo a atingir 0,8% do PIB (atualmente, corresponde a 0,4%); taxar as grandes fortunas, medida que pode contribuir com até 0,7% do PIB; ampliar a cobrança do Imposto sobre a Transmissão “Causa Mortis” e Doação de Quaisquer Bens ou Direitos (ITCD), cuja arrecadação poderia saltar de 0,05% para 0,49% do PIB; diminuir as renúncias e os subsídios fiscais, cujo potencial de arrecadação corresponde a 3% do PIB; e controlar as sonegações do Imposto Territorial Rural (ITR), ação que pode gerar até 1% PIB.
Além de aumentar o financiamento tributário, o IPEA recomenda diminuir a taxa de juros (Selic), iniciar uma captação de recursos em agências públicas de fomento nacionais e internacionais e entre as empresas estatais e privadas. Também foram apontadas melhorias de gestão e controle social do gasto público.
A renda do governo com o Pré-Sal, que vem sendo lembrada pelo governo, também está no estudo. Segundo Tatiana Britto, o governo considera essa a principal nova fonte de receitas, mas estes recursos dependem da capacidade de exploração do petróleo e do preço da commodity no mercado internacional. “Além disso, o pico de produção deve acontecer só daqui a dez anos”, fala.
Segundo Marcelino, foi proposto um modelo de contribuição em que cada ente federado contribuiria de forma proporcional às suas receitas, mas a medida não foi incluída no PNE. “Como o governo vai desatar esse nó dos 10% implicará muitas negociações. A União deve dar o primeiro passo”, afirma. “O PNE não é um plano do governo. Ele demanda articulação dos estados, municípios e da União. Se não tiver articulação, não vai andar”, concorda Brito.
http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/208/artigo323842-1.asp

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Enciclopédia da conservação

Página na internet aberta à colaboração dos internautas traz informações sobre todas as áreas de preservação ambiental brasileiras.
Enciclopédia da conservação
Com 33.800 hectares de cerrado, o Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas Gerais, abriga cânion, cachoeiras e piscinas naturais. O Wikiparques traz um guia completo para a visitação da área. (foto: Frederico Pereira/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
O Brasil conta com 69 unidades de conservação ambiental para proteger sua rica biodiversidade. Os interessados em conhecer um pouco mais esses ‘santuários’ localizados de norte a sul do país têm à sua disposição a página virtual Wikiparques, uma espécie de enciclopédia digital colaborativa com informações gratuitas sobre essas áreas. Criada pela associação O Eco, com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, a plataforma busca estimular o interesse da população brasileira pela preservação do meio ambiente.
Mapas e explicações de como chegar, possibilidade de visitação, preço dos ingressos, atrações que podem ser encontradas nas unidades de conservação e o tipo de biodiversidade nelas preservada são alguns dos dados disponíveis, que possibilitam aos internautas se informar e, quem sabe, ser despertados a visitar tais locais. Informações técnicas, como a extensão, o tipo de bioma, a fauna, a flora, o clima e o relevo das áreas de preservação, entre outras, também podem ser conferidas na enciclopédia.
Parque Nacional da Chapada das Mesas
A enciclopédia também reúne informações sobre unidades de conservação menos conhecidas, como o Parque Nacional da Chapada das Mesas, no Maranhão. (foto: Otávio Nogueira/ Flickr – CC BY 2.0)
A página lista ainda os problemas e ameaças enfrentados pelas unidades de conservação. Ameaças essas que podem ser de ordem natural, como ocorre no Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas Gerais, que em 2012 registrou o pior incêndio dos últimos 20 anos, causado por queimadas nos períodos de seca; ou provocadas pela ação do homem, como no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, que sofre com a caça ilegal e ocupações irregulares.
Juntas, as áreas de preservação ambiental no Brasil cobrem 1,5 milhão de km², o que corresponde a cerca de 17% de todo o território do país
Todos os verbetes da enciclopédia podem ser alterados pelos internautas – assim como ocorre na Wikipédia, em que usuários têm o poder de adicionar novas informações e fotos. O site Wikiparques conta ainda com fóruns de discussão, onde é possível debater sobre áreas naturais de todo o Brasil. Na página, já existem 139 verbetes criados por visitantes. Para contribuir, basta fazer um cadastro rápido no próprio site.
Juntas, as áreas de preservação ambiental no Brasil – federais, estaduais, municipais ou privadas – cobrem 1,5 milhão de km², o que corresponde a cerca de 17% de todo o território do país. Hoje, apenas 18 dos 69 parques nacionais brasileiros estão abertos para visitação.
Mas isso pode estar prestes a mudar. Em razão da realização da Copa do Mundo deste ano e das Olimpíadas de 2016 no Brasil, os ministérios do Meio Ambiente e do Turismoanunciaram a liberação de R$ 10,4 milhões para obras de acesso e sinalização em 16 parques nacionais até 2014. A meta é abrir todas as unidades de conservação brasileiras para o público até 2020.

Lucas Lucariny
Ciência Hoje On-line
http://cienciahoje.uol.com.br/blogues/bussola/2014/08/enciclopedia-da-conservacao/view

Meritocracia em discussão

No momento em que os Estados Unidos rediscutem suas políticas meritocráticas no campo educacional, o Brasil atrela resultados à cobrança de desempenho dos professores. Mas, afinal, qual o impacto dessas ações para o ensino-aprendizagem?


Cristina Charão
Colaborou Lia Segre

Regina Miyeko Oshiro, professora de história na Escola Estadual Moacyr Campos (SP)























Em 2001, o então presidente americano Geor­ge W. Bush aprovava a lei "No Child Left Behind" (NCLB ou Nenhuma Criança Deixada para Trás), que instituía a primeira grande política de meritocracia do país. Começava a era das métricas para aferição de “avanço anual” dos alunos, e a consequente responsabilização dos atores educacionais por esse desempenho. Hoje, nos Estados Unidos, a utilização desses resultados para avaliar o trabalho docente sofre duras críticas. No Brasil, diversos estados possuem políticas de bonificação de professores por mérito, e o recém-sancionado Plano Nacional da Educação (PNE) incluiu menção a “políticas de estímulo às escolas que melhorarem o desempenho no Ideb”. Em meio à discussão americana sobre um processo que dura mais de uma década, e a tendência brasileira por adotar políticas meritocráticas, a questão que se coloca é: como medir o desempenho dos professores? E, sendo essa a base para políticas de “reconhecimento”, elas surtem efeito no processo de ensino-aprendizagem?
De forma geral, no Brasil e no resto do mundo as políticas têm sido desenhadas com dois traços centrais: a mensuração do mérito do docente associada ao desempenho dos estudantes, especialmente através de testes padronizados, e a remuneração variável – ou pagamento de bônus por desempenho. Com isso, pesquisadores críticos ao método argumentam que as ações de cunho meritocrático carregam consigo também a noção de responsabilização do professor pelos resultados alcançados pelos alunos. Em outros termos: quando se associa o mérito do educador ao resultado obtido pelo aluno está se afirmando que o educador é o responsável direto por este resultado.
Mas, embora utilizado como base das políticas públicas de gestão de recursos humanos nas redes de educação de diversos paí­ses e no Brasil (veja levantamento o lado), não há, até o momento, provas contundentes de que o reconhecimento do trabalho dos educadores, especialmente sob a forma da distribuição de bônus salariais, tenha efeito real sobre a qualidade do processo de ensino-aprendizagem e o desempenho dos alunos. A dificuldade de medir o impacto do trabalho docente no desempenho dos alunos é tanta que a rede escolar de Washington, D.C., uma das primeiras dos Estados Unidos a utilizar os resultados obtidos por estudantes em testes padronizados na avaliação de seus professores, anunciou em junho último que abandonaria essa prática (leia mais na página 48).
Tendência brasileira
Levantamento realizado por Educação mostra que, no Brasil, a tendência das redes estaduais de ensino é a de adotar políticas de bonificação de professores por mérito. Das 22 unidades federativas que responderam à reportagem, oito têm algum tipo de gratificação desse tipo, e três têm bônus para servidores que não levam em conta o desempenho, mas sim outros fatores, como avanço na carreira e títulos acadêmicos, como é o caso do Distrito Federal. Alguns estados que não possuem políticas desse tipo estão estudando essa possibilidade. Santa Catarina, por exemplo, está no caminho de implantar políticas de prêmios de acordo com desempenho. Já em Rondônia, tramita na Assembleia Legislativa um projeto de lei que prevê a implantação de políticas de reconhecimento para os professores da rede pública.
A ideia do reconhecimento do esforço do professor, gestores e mesmo das redes de ensino para estimular a melhora do desempenho escolar dos alunos deve ganhar mais espaço nas políticas públicas a partir do Plano Nacional de Educação (PNE), recentemente sancionado pela presidenta Dilma Rousseff. O item 7.36 do PNE prevê que sejam estabelecidas “políticas de estímulo às escolas que melhorarem o desempenho no Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica], de modo a valorizar o mérito do corpo docente, da direção e da comunidade escolar”. A estratégia está associada à meta de melhoria da qualidade da Educação Básica, medida através de médias nacionais do Ideb esperadas para os próximos sete anos.
A menção adicionada ao PNE nos últimos instantes da tramitação de mais de três anos do Plano no Congresso Nacional não diz, exatamente, quais ações de reconhecimento do mérito deverão ser implementadas.
“Quando se fala de políticas de reconhecimento do mérito do professor é preciso ter muito definido o que se está chamando de ‘reconhecimento’ e de ‘mérito’, você pode cair numa armadilha”, avalia Antônio Bara Bresolin, coordenador da área de Avaliação Econômica de Projetos Sociais da Fundação Itaú Social. “Reconhecimento pode ser em benefícios, um troféu, um prêmio, uma remuneração variável. E o mérito também pode variar: é possível avaliar o professor que não falta e cujos alunos têm melhores resultados.”
Reconhecimento x mérito
O que se entende por benefício e por mérito – ou quais resultados são esperados e de quem é a responsabilidade por eles – não parece muito claro nem mesmo no setor privado da educação brasileira, onde não é fácil identificar ações ou programas que estabeleçam claramente metas a serem alcançadas pelos docentes e recompensas para quem chega a estes objetivos.
Aparentemente, por fazer parte dos fundamentos do sistema de recrutamento e contratação de professores, a ideia de mérito e de reconhecimento da competência acaba sendo traduzida no conjunto das políticas de gestão de pessoal das escolas particulares. “No setor privado, a lógica é simples: se o professor não estiver dentro dos padrões esperados ou do comportamento previsto pela mantenedora, ele é substituído”, comenta Adércia Hostin, coordenadora da Secretaria de Assuntos Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee).
Os padrões esperados são, ao mesmo tempo, pouco objetivos, mas claros. “A clientela exige da escola e a escola exige do professor”, resume Mauro Aguiar, diretor-presidente do Colégio Bandeirantes, de São Paulo. No Bandeirantes, não há programas específicos de recompensa ou premiação, mas a avaliação frequente dos professores, feita pelos alunos, guia o trabalho de gestão de recursos humanos. A exceção, no caso da escola, são os professores do 3º ano do ensino médio. “Os melhores professores participam das aulas de reforço, em dezembro, e recebem um plus por isso. E os melhores dentre estes professores, na avaliação dos alunos e dos coordenadores, também recebem um bônus”, diz Aguiar. Apesar de não ver a bonificação como um regra para a gestão dos recursos humanos no setor privado, o diretor do Bandeirantes, que é membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, acredita que a política implementada na rede púbica é salutar.
Responsabilidade ou culpa?
Mesmo sem tradução clara no setor privado, a lógica meritocrática avança no setor público. A associação do mérito do educador ao resultado obtido pelo aluno é o ponto central da crítica feita por pesquisadores da área da educação às políticas de reconhecimento do mérito – ou de responsabilização. “O professor exerce seu trabalho sob certas condições dadas pela gestão escolar, pela gestão pública e pelas condições socioeconômicas do território onde ele trabalha e das condições socioeconômicas dos alunos”, lembra Antonio Augusto Gomes Batista, coordenador de Desenvolvimento de Pesquisas do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). “Então, o professor é um dos responsáveis, um agente importante, mas não o único.”
O fato de as políticas de reconhecimento do mérito apostarem na responsabilização, sem considerar ponderações desse tipo, tem três tipos de efeitos. O primeiro está no nível do simbólico. Em um cenário de maus resultados educacionais, essa responsabilização alçada à categoria de política pública culpabiliza o professor. Sendo o culpado pela má qualidade da educação, a figura do professor perde prestígio social, fazendo com que a profissão em si seja desvalorizada, o que alimenta o ciclo vicioso de afastar os jovens do magistério.
O segundo é pedagógico, como aponta a pesquisa realizada por Danielle Nogueira e Catarina de Almeida Santos, professoras e pesquisadoras da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), como divulgado na edição de julho (207) da revista Educação. O estudo indica que os processos de avaliação de desempenho criados para servir de base à distribuição dos prêmios e bônus tendem a enquadrar o trabalho pedagógico em modelos preestabelecidos que não contam com a participação efetiva do professor. Assim, em nome de uma lógica quantitativa de qualidade, perde-se o elemento criativo e socialmente situado nos processos educativos.
O terceiro encontra-se no nível da matemática e da estatística. Sendo a educação um processo multifatorial, descobrir a parte dos resultados dos alunos que cabe ao professor ou ao gestor e aquela que está relacionada a fatores externos à escola exige um refinamento estatístico que alguns creem ser impossível de alcançar.
“Há um grande acordo no fato de que os testes realizados com os alunos não medem apenas o conhecimento do aluno, mas também o seu nível socioeconômico”, afirma o professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Luiz Carlos Freitas. Sendo assim, para calcular o que, no desempenho do aluno, é resultado da ação do professor, seria preciso criar um modelo matemático que retirasse dos resultados obtidos em testes tudo aquilo que tenha a ver com a vivência extraescolar do estudante. “Não contamos hoje com métodos confiáveis para fazer esse cálculo”, diz.
Ele cita como exemplo os métodos de cálculo de valor agregado (VAM) desenvolvidos nos Estados Unidos, país que mais tentou implementar formas de remuneração variável associadas ao desempenho, os chamados bônus. Através de vários modelos matemáticos, calcula-se o progresso dos estudantes sob um professor, a partir do desempenho desses estudantes em testes padronizados e o bônus ou o salário é associado a quanto este professor impactou o desempenho dos seus estudantes. “Esses modelos foram largamente incentivados pelo Departamento de Educação americano, mas os problemas de estabilidade e confiabilidade que apresentam são largamente tratados na literatura americana e denunciados recentemente como inadequados pela Associação Americana de Estatística para efeitos desse tipo de decisão”, relata Freitas (leia mais sobre a reação americana à eficácia do cálculo na página 48).
Eficiência 
A matemática, a estatística e os cálculos econométricos também não conseguiram, até agora, concluir se a adoção de políticas de reconhecimento do mérito do professor são, de fato, eficientes no sentido de promover melhorias no desempenho dos estudantes. Um dos casos mais citados pelos críticos das medidas de responsabilização é o da cidade de Nova York, uma das primeiras a incluir a remuneração variável de acordo com resultados alcançados – a chamada bonificação – para professores entre as medidas adotadas em uma ampla reforma educacional e uma das primeiras a desistir da ideia. Na avaliação realizada, não houve indicação de que as escolas que adotaram o pagamento de bônus para educadores tenham alcançado melhores resultados que as demais. “O prefeito naquela época declarou que estava interrompendo essa política porque não queria malgastar o dinheiro público”, afirma Luiz Carlos Freitas.
Chamando a atenção para o fato de que qualquer política de reconhecimento do mérito docente precisa considerar aspectos socioeconômicos e extraescolares, Batista, do Cenpec, lembra que também é necessário pensar que medidas de responsabilização podem ter uma dimensão simbólica muito importante para o professor e para o aluno. “Quando se trata apenas do aspecto financeiro, o efeito é mínimo e especialmente quando recai só sobre os professores”, diz. “O bônus vira um adendo salarial, um penduricalho.”
O penduricalho, no entanto, pode custar caro aos cofres públicos. O estado de São Paulo pagou R$ 700 milhões em bônus para profissionais da educação no início deste ano. Dinheiro que pode estar sendo gasto em vão e mesmo incentivando práticas antipedagógicas. Têm sido comuns denúncias de fraudes nos sistemas de avaliação para maquiar ou melhorar artificialmente o desempenho de escolas e professores. No Brasil, pelo menos um caso tornou-se público e segue sob investigação da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.
Em 2012, professores da Escola Reverendo Augusto da Silva Dourado, de Sorocaba (SP), teriam auxiliado alunos a resolver a prova do Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), utilizada como critério para a distribuição dos bônus salariais. Naquele ano, a escola registrou a maior média entre as escolas do estado: 9,3. Em 2013, já com o processo de investigação instaurado, a nota da escola despencou para 2,63.
Qual mérito 
Mesmo quem acredita na eficácia teórica da adoção de medidas baseadas no mérito, para incentivar a qualidade da educação, é cauteloso ao falar tanto do desenho das políticas quanto de seus resultados. Antonio Bresolin acaba de defender a sua dissertação de mestrado na área de Políticas Públicas na Fundação Getulio Vargas, na qual estuda os efeitos de políticas de remuneração variável para professores e gestores adotadas por oito estados brasileiros. O primeiro foco da pesquisa foi caracterizar essas políticas. O segundo, mensurar os seus impactos não sobre o desempenho dos alunos – que seria o resultado do processo educativo –, mas sobre o trabalho docente em si.
Entre os oito estados cujas políticas de bonificação foram avaliadas, Bresolin identificou quatro – São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Espírito Santo – que utilizam como critério para a remuneração variável metas de desempenho dos alunos em provas estaduais e também dados de absenteísmo do professor. “Para o professor ser elegível, precisa normalmente ter uma presença mínima, mas cada estado tem a sua regra para distribuir os bônus”, diz.
Já em Goiás, não há metas de desempenho do aluno em provas, nem o absenteísmo é considerado para o pagamento da bonificação. “Eles têm critérios muito diferentes”, comenta o pesquisador. No estado, o programa está muito mais voltado para a prática pedagógica, ou seja, para o trabalho do professor em si, e não dos resultados dos alunos. O pagamento de bônus está associado à frequência de entrega e à qualidade dos planos de aula.
Para Bresolin, esta é uma questão central para pensar as políticas de reconhecimento do mérito: o foco na atitude do professor ou gestor. “Aplica-se o estímulo para que professores e diretores, de alguma maneira, se sintam empoderados para contribuir com uma melhora no desempenho do aluno, ou seja, tem de ser um estímulo para que eles se comportem de maneira diferente para gerar uma melhoria de aprendizagem no aluno”, diz. “Mesmo em São Paulo ou em Pernambuco, onde o bônus está associado ao fato de os alunos baterem metas, o professor tem de fazer algo diferente para que o aluno chegue lá.”
Por esta razão, Bresolin resolveu avaliar se a adoção das políticas de remuneração variável impactaram ações pedagógicas e de gestão escolar. Através dos questionários aplicados a diretores, professores e alunos na aplicação da Prova Brasil, o pesquisador levantou dados sobre frequência de correção da lição de matemática e português; percentagem do conteúdo programático vencida pelo professor; percepção de professores e gestores sobre as faltas ou rotatividade dos docentes e a frequência e qualidade de ações voltadas para o combate do abandono escolar.
A comparação entre escolas incluídas em políticas de bônus e escolas cujos professores e gestores não recebem esse tipo de estímulo mostrou resultados muito tímidos. Em relação ao conjunto de práticas pedagógicas avaliadas – a atenção à lição de casa e a efetiva apresentação do conteúdo programático –, Bresolin afirma que há um impacto positivo dos dois tipos de bônus sobre o trabalho dos professores do 5º ano. “No 9º ano, esse impacto é imperceptível”, diz.
Ele lembra que pesquisa que avaliou o impacto dos bônus no desempenho dos alunos nos testes padronizados em São Paulo também indicou uma leve melhoria para alunos do 5º ano e nenhum impacto para alunos do 9º ano. “A hipótese principal é que, quanto menor o aluno, mais o professor se sente capaz de fazer diferença na vida dele”, avalia Bresolin.
Em relação ao absenteísmo e rotatividade dos professores, não quer dizer que estados que não têm a política de bônus tenham mais faltas ou que os outros tenham menos. “Mas pode-se perceber uma maior preocupação. E a rotatividade aparentemente começa a ser um problema menor”, afirma Bresolin.
Sem certezas
Ainda que a pesquisa indique sutis mudanças no comportamento de professores e diretores incluídos nos programas de bonificação, Bresolin diz que não é possível afirmar que há uma relação de causa e efeito. “A educação é um ambiente complexo e vários fatores podem estar relacionados a estes resultados, inclusive porque estes estados também implementaram outras ações junto com a remuneração variável”, diz.
Para Batista, no entanto, não há dúvidas de que políticas de responsabilização mal equalizadas, que desconsiderem fatores como o contexto socioeconômico dos alunos e das comunidades e estejam focadas apenas na questão salarial, são ineficientes e até negativas. “Quando apenas focada no bônus e na responsabilização, é uma política inócua do ponto de vista da qualidade de ensino e perversa do ponto de vista da criação da ideia de que o professor é o grande responsável pela má qualidade do ensino”, diz Batista.
Já Freitas é mais enfático em sua crítica. Para ele, não há como afirmar que haja qualquer efeito positivo da adoção de políticas de responsabilização. “A tentativa de aumentar a eficácia dos professores através de bônus é muito antiga e está no campo da fé e não da ciência”, afirma.
Sob a política do desempenho
“A política de bonificação acaba discriminando as escolas. Em São Paulo, quem tem uma queda acentuada no Saresp [Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo] ganha o título de ‘prioritária’. Seria para receber mais atenção da Secretaria de Educação, mas, para os professores e a direção, isso é como um castigo. Desde que a política foi implantada, não acredito que ela tenha significado melhoria na qualidade de ensino. Ao contrário: na nossa escola percebi que os professores que sempre valorizaram o desempenho dos alunos nas provas hoje se sentem desanimados. Em anos anteriores, os professores do ensino médio receberam um salário e meio de bônus. No ano passado, a nota do Saresp caiu. Mas veja só: o ensino fundamental II nunca recebeu o bônus e são, praticamente, os mesmos professores! A escola é a mesma. Há ainda outra coisa: o exame deveria servir para que pudéssemos detectar algum tipo de problema, mas nós não conseguimos fazer isso. É só um teste. Se entendermos que quem ganha o bônus está fazendo um bom trabalho, e quem não ganha não está, nada muda. Tínhamos de pensar o que está errado e o que precisa mudar.”
Regina Miyeko Oshiro 
Professora de história na Escola Estadual Moacyr Campos, São Paulo (SP)

Índice próprio
O Espírito Santo baseia suas políticas segundo um exame chamado Programa de Avaliação da Educação Básica do Espírito Santo (Paebes), elaborado pela Universidade Federal de Juiz de Fora. O exame avalia português e matemática desde o 1º ano do ensino fundamental até o ensino médio e é universalizado para escolas e alunos. Um fator de correção é aplicado aos resultados considerando a vulnerabilidade socioeconômica da região. O bônus é calculado levando em conta o resultado por escola, mais a frequência do professor. Leia, a seguir, entrevista com o secretário estadual de Educação, Klinger Barbosa Alves.
Por que o estado começou a aplicar o Paebes?
Esses exames nos dão resultado do desempenho da unidade em língua portuguesa e matemática. Junto com esse dado aplicamos uma avaliação do ambiente socioeco­nômico onde a escola está localizada, o que entra como fator de correção. Se a escola é situada em região vulnerável, temos um índice que tenta corrigir isso, aproximando-a do índice de uma região melhor. Esse é um componente importante para comparar escolas, não fazendo um ranking, mas avaliando desempenho. Isso falta no Saeb.
Quais são os parâmetros adotados para a avaliação?
Construímos um parâmetro chamado índice de desenvolvimento escolar para avaliar se estamos melhorando. Ele dá o índice de desempenho da escola, e vale pra todos os profissionais. Junto com isso fazemos o levantamento de presença do professor. O bônus, portanto, é a união do desempenho da escola e da presença do professor. O máximo que se ganha a mais é um salário. O bônus mínimo é 30%.
E quais têm sido os resultados dessa avaliação?
Os resultados são positivos para a rede como um todo. O sistema usado na avaliação dos alunos é a Teoria de Resposta ao Item (TRI), o que é diferente de avaliação pessoal.

Foco na prática pedagógica
Implantado em 2011, o programa Reconhecer, da Secretaria Estadual de Educação de Goiás, bonifica professores e servidores (coordenadores pedagógicos, tutores e membros do grupo gestor) da rede pública estadual­. O valor do bônus é de R$ 2 mil para professores com carga horária de 40 horas semanais, sendo proporcional às demais cargas horárias. Ou seja, um profissional com carga horária de 60 horas pode receber até R$ 3 mil.
CRITÉRIOS
Professor regente: além da assiduidade, também tem de apresentar o planejamento quinzenal das aulas.
Coordenadores pedagógicos: são consideradas a presença comprovada na escola e a participação nas formações do Núcleo de Orientação Pedagógica da Secretaria da Educação.
Tutores pedagógicos: presença comprovada nas escolas e nas Subsecretarias Regionais de Educação e participação nas formações do Núcleo de Orientação Pedagógica da Secretaria da Educação.
Grupo gestor: é considerado o Índice de Gestão, uma ferramenta de avaliação do cumprimento de tarefas pelo Grupo Gestor nas escolas composto pelo cumprimento do calendário escolar, inserção diária dos dados da escola no Sistema de Gestão Escolar do Estado de Goiás (Sige) e manutenção de canal de comunicação com a Secretaria da Educação.


Os conceitos
Meritocracia: entendimento de que deve haver igualdade de oportunidades, não necessariamente de resultados. Estes dependem de esforço pessoal.

Bonificação: quando há um salário fixo básico ao qual se soma um extra (um bônus) proporcional ao esforço pessoal do professor em sua profissão, em sua sala.

Responsabilização: a ideia de responsabilizar os gestores pela qualidade da educação vem de longa data. No Brasil, em termos legais, começa a ganhar forma nesta década.

http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/208/a-metrica-da-educacaono-momento-em-que-os-estados-unidos-323843-1.asp

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