terça-feira, 8 de julho de 2014

Estudo revela que desempenho de alunos melhora em até 70% com professor capacitado

Capacitar os professores é a opção mais viável para melhorar o desempenho dos alunos. É o que aponta o estudo Formação Continuada de Professores no Brasil, do Instituto Ayrton Senna e do Boston Consulting Group, lançado nesta segunda-feira, 7, em São Paulo. A cerimônia de lançamento contou com a participação do ministro da Educação, Henrique Paim.
De acordo com o estudo, que apresenta desafios e oportunidades relacionados à formação continuada de docentes no Brasil, estudantes expostos a bons professores aprendem de 47% a 70% a mais do que aprenderiam em média em um ano escolar. A pesquisa ainda destaca que é possível atuar em todas as etapas da carreira, e promover a melhoria da formação em serviço apresentaria melhores resultados no curto prazo.
Segundo a presidenta do Instituto Ayrton Senna, Viviane Senna, o estudo discute possíveis linhas de ação que podem contribuir para acelerar a formação continuada e a qualificação dos pro¬fessores no Brasil. “A capacitação dos professores é a alavanca acioná¬vel, ou seja, mais aberta ao direcionamento por parte de secretarias de Educação e escolas e a que mais influencia o desempenho dos alunos”, disse.
Segundo o ministro, o diagnóstico da pesquisa está de acordo com os levantamentos do Ministério da Educação. Paim destacou que a formação que a universidade oferece é distanciada da realidade das salas de aulas. “A palavra-chave é o amadurecimento na relação entre educação básica e a educação superior, esta relação precisa ser aperfeiçoada para melhorar a formação inicial e continuada dos professores”, afirmou.
Para o estudo Formação Continuada de Professores no Brasil, foram entrevistados, por meio eletrônico, 2.732 pessoas entre secretários de Educação, supervisores de ensino, diretores de escolas, coordenadores pedagógicos e professores entre novembro de 2012 e março de 2013.
Durante a cerimônia, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (Capes), anunciou um edital para desenvolver a formação de quadros em competência socio-emocionais, da graduação ao doutorado em psicologia, pedagogia e licenciaturas. Serão oferecidas bolsas para 30 doutorandos, 60 mestrandos e 150 professores de educação básica das escolas públicas e 300 estudantes de graduação.
Assessoria de Comunicação Social

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=20573

Escola das cores

Casal de estrangeiros cria escola no meio da Amazônia, supera analfabetismo, falta de professores e ensina por meio de um método próprio de alfabetização


Thais Antunes (texto e fotos)

"Foi uma pergunta que abriu uma porta que nunca mais fechou.” Assim Paul Clark explica o nascimento da escola Vivamazônia, a única a funcionar com regularidade no rio Jauaperi, afluente do rio Negro-Amazonas, num raio de 500 quilômetros do município de Novo Airão (AM). A pergunta, na verdade, era um pedido do caboclo Waldemar ao casal de amigos estrangeiros: que o escocês Paul, 54, e sua mulher italiana Bianca Buonvicini, 49, alfabetizasse ele e seus 11 filhos. O casal tinha recém-chegado à Amazônia e ainda estava aprendendo a falar português. Viram na proposta uma maneira de aprender a nova língua ensinando, e de retribuir a gentileza recebida dos ribeirinhos até então. O que não imaginavam era que o trabalho pedagógico se tornaria a missão de suas vidas. Hoje, 20 anos depois, a escola devidamente regularizada junto ao Ministério da Educação ensina, em média, 14 crianças do Ensino Fundamental I por ano.

Metodologia das cores
Paul é licenciado em literatura francesa e já havia dado aulas de inglês. Bianca é formada em artes plásticas, mas nenhum dos dois tinha formação pedagógica. Em 2008 prestaram concurso público e tomaram posse no ano seguinte como professores do Ensino Fundamental I da zona rural.
A metodologia para alfabetizar e ensinar as crianças nasceu intuitivamente e foi construída de acordo com a necessidade apresentada por cada aluno. Quando começaram, eles não tinham sequer cadernos e lápis e, algumas vezes, chegaram a ensinar desenhando na areia. Bianca usou sua formação artística e introduziu primeiro o desenho, depois o conto, e devagar foi estudando a melhor maneira de ensinar.
Diante da dificuldade das crianças em aprender com os livros que chegavam à escola, o casal criou uma metodologia de alfabetização por associação de cores. Estabeleceram um código segundo o qual cada vogal é associada a uma cor e a sílaba segue correspondendo a essa vogal. Por exemplo: a vogal A tem a cor vermelha, então, por associação, as palavras com sílabas com essa letra – BA, CA, DA… – assumem a mesma cor.
Outra dificuldade era que os livros tinham referências completamente distantes da realidade daquelas crianças. Num estudo sobre bacias hidrográficas, o livro de geografia apresentava fotos de geleiras. No livro de português, as histórias eram de Portugal. O casal passou, então, a confeccionar seus próprios livros – com o método de cores e histórias da região. Orientados pelo casal e seguindo a metodologia, os alunos escrevem, desenham e pintam uma história nos livros. Nos anos seguintes, os materiais são reutilizados por outras turmas de alfabetização.

Dificuldades e abandono
A maior dificuldade dos alunos da região consiste em dar continuidade ao estudo: quando se formam na Vivamazônia, concluindo o Fundamental I, precisam ir para outra escola e se deparam com a triste realidade das escolas na zona rural.
A maioria das escolas se encontra em péssimas condições estruturais, com goteiras e paredes caindo. E, em geral, não contabilizam nem 40 dias de aulas letivas no ano – o mínimo exigido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB) são 200 dias. Não é novidade para as comunidades ribeirinhas do município de Novo Airão a falha no sistema de entrega da merenda e da gasolina usada nos barcos para buscar os alunos. O material didático muitas vezes também não é enviado, obrigando os alunos a usarem os livros do ano anterior para não pararem de estudar.
Com condições tão precárias de ensino, sem material didático, escolas a ponto de cair, os professores, por falta de estrutura, muitas vezes dormem nas próprias escolas. Segundo o novo secretário de Educação, Genivaldo Batista Rodrigues, no cargo desde dezembro do ano passado, um dos agravantes é que os professores chegam muito despreparados para enfrentar as dificuldades específicas do local, e na maioria das vezes desconhecem a cultura das comunidades ribeirinhas. Quando retornam para a cidade para buscar o salário, que muitas vezes atrasa, acabam não retornando mais. O secretário diz que encontrou a zona rural desacreditada, pelos professores e pela própria comunidade.
Genivaldo confirma todas as histórias, desde as mais surpreendentes – como a de líderes da comunidade que ficam com parte da gasolina destinada ao transporte das crianças para si –, desvio de merendas, e os atrasos no salário dos professores. “Nós estamos trabalhando com produtos muito cobiçados na zona rural, que é a comida e a gasolina. Isso vale ouro aqui, e eu ainda não sei como evitar que isso aconteça”, diz referindo-se aos desvios. Ele afirma que, apesar da vontade, sabe que reverter esse cenário é um trabalho de longo prazo e não tem como prever quanto tempo ficará no cargo.

Histórias criadas
O método de Paul e Bianca permitiu o acesso à leitura e à escrita e, mais importante, levou autoconfiança para os alunos na alfabetização. Segundo Paul, as crianças tinham muita vergonha de errar e a metodologia das cores facilitou a visualização e deu segurança no aprendizado. Caroline Laranjeira de Lima, de 12 anos, conta que antes de estudar na Vivamazônia era muito calada e sozinha. “Lá é diferente, aprendemos com música e pelas cores. Nas outras escolas, a gente escreve, escreve, passa o dia inteiro escrevendo.”
Yara Clarck, 19 anos e filha do casal, nasceu no Brasil e foi alfabetizada na Vivamazônia junto com as outras crianças. Hoje, por iniciativa própria, ajuda os pais duas vezes por semana na escola. “Algumas vezes penso em outros caminhos para ensinar, mas vejo que esse é realmente o mais rápido e eficiente”, diz.
Além de estarem presentes nos livros e na metodologia, as cores também estão nas paredes, desenhadas e pintadas pelos alunos e pela professora Bianca. Ao chegar à escola encontramos pequenas sandálias na porta – como é costume na região para evitar a terra entrar nas casas. Subindo as escadas da construção de palafitas encontramos todos sentados no chão, professores e alunos. As aulas ainda são ministradas no quadro-negro. Alguns bancos de madeira, coloridos e desenhados com temáticas amazônicas, são usados como mesas para escreverem. O ambiente é simples, mas extremamente acolhedor.
Algumas histórias dos livros são inventadas pelos alunos, como a do boto que namora a pirarara (um tipo de peixe). Outras são reproduzidas com base nos relatos de seus pais e familiares. “Nossa intenção inicial era, por meio da escola, tentar preservar a cultura local, que na época já parecia se perder”, constata a professora. Paul acredita que a educação é a única maneira de preservar a cultura ribeirinha e reverter a influência da televisão nessas comunidades. “As crianças que antes pescavam, plantavam, acompanhavam seus pais na mata aprendendo tudo sobre a floresta hoje saem da escola e passam a tarde na frente da televisão”, conta Paul.
Futuro
Durante os 20 anos de existência da Vivamazônia, o casal venceu muitas barreiras: oficializaram a escola no Ministério da Educação, passaram no concurso público para professor e a escola nunca fechou. “Mesmo quando eu tive um problema grave de saúde optamos pelo Paul ficar e eu ir me cuidar na Itália porque sabíamos que, se saíssemos, a escola fecharia”, diz Bianca. O casal diz que enfrenta algumas resistências, já tendo sido ameaçados de morte, especialmente pelo trabalho de preservação de quelônios (veja box). “Em geral o caboclo não pensa no amanhã. Ele quer comer hoje, não quer saber se o que ele faz hoje pode implicar não ter mais peixe ou tartaruga no futuro”, diz Bianca.
Quando questionados sobre por que continuar buscando meios alternativos e lutando para manter a Vivamazônia, mesmo com tantas forças contrárias, Paul diz que a ideia era conseguir mostrar que era possível ter uma escola de qualidade no interior da Amazônia e assim o governo replicaria o modelo. Não aconteceu. “Hoje o importante é a criança. Se eu conseguir salvar ao menos uma da fragilidade do analfabetismo, já estou satisfeito”, diz Paul.
Apesar de não gostarem de falar muito de si e sempre direcionar a conversa para a Vivamazônia, a determinação e a vocação do casal é, sem dúvida, o que sustenta os pilares dessa escola. “Educação para mim é liberdade, é abrir as portas, tornar-se dono da própria vida. É a única maneira de garantir seus direitos e o próprio mundo”, diz Paul, com o aval da esposa Bianca.

Italianos ajudaram até crise europeia
A escola Vivamazônia está localizada a dois dias navegando de barco de Manaus, num local antes conhecido como Igarapé do Gaspar. Foi aberta e regularizada em 1998, como escola anexo da escola São Pedro, a 1h40 min do Gaspar. É para lá que os alunos vão quando se formam no 5º ano.
A escola e mais duas casas – uma para o casal Paul e Bianca e outra para Waldemar e sua família – foi construída com a ajuda financeira de um grupo de amigos italianos, que formou a Associação Vivamazônia. A contribuição mensal – realizada com economias pessoais – manteve a escola desde seu nascimento até meados de 2008, no auge da crise europeia.
Com a interrupção da ajuda dos amigos italianos, a escola ficou desamparada por um período. Foi quando uma empresa de ecoturismo de Novo Airão, que fazia roteiros próximo à região, apareceu em 2010 e desenvolveu um roteiro exclusivo onde os turistas têm a possibilidade de conhecer e conviver com os alunos e, assim, assumiu a escola como um dos projetos. sociais da empresa.

Ativismo ambiental
A realidade local sempre foi o pano de fundo para a educação na escola Vivamazônia. As matérias obrigatórias são introduzidas por meio da realidade vivida pela comunidade. São tratados desde os mais simples temas, como a visita de uma pequena cutia órfã até questões ambientais mais sérias, como a pesca predatória, a criação das reservas extrativistas e a extinção dos quelônios (tartarugas de todos os tipos) na região.
Diante da situação de quase extinção dos quelônios, Paul foi para a capital Manaus estudar como recolher e cuidar dos ovos de tartaruga e outras espécies da região. Desde 2003, passa três meses por ano, com ajuda de Waldemar, recolhendo os ovos na madrugada, mais dois meses cuidando dos filhotes até que se desenvolvam para então soltá-los numa manhã de aula de ciências. Os alunos participam de tudo, aprendendo como fazer. São soltas 500 tartarugas, o que ele considera um ato simbólico, pois a maioria delas morrerá – naturalmente ou por pesca predatória – antes de atingirem idade adulta. “A escola é a única maneira de introduzir uma consciência de preservação ambiental dentro da comunidade” diz Paul. E parece que tem surtido efeito: este ano um ex-aluno da escola e alguns moradores se uniram na coleta dos ovos e já se escuta crianças ensinando seus pais acerca da importância da preservação do meio em que vivem.

http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/206/escola-das-cores-313261-1.asp

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Confira 10 perguntas e respostas para entender o Plano Nacional de Educação

Ana Elisa Santana*
Do Portal EBC
O PNE (Plano Nacional de Educação) foi sancionado no último dia 26 de junho. A lei tramitou no Congresso Nacional durante quatro anos e estabelece 20 metas para serem cumpridas até 2023.
Entre os objetivos estão ampliar o acesso desde a educação infantil até o ensino superior, melhorar a qualidade de forma que os estudantes tenham o nível de conhecimento esperado para cada idade, e valorizar os professores com medidas que vão da formação ao salário dos docentes.

Abaixo, listamos 10 perguntas básicas que ajudam a entender melhor o PNE, como ele será colocado em prática e quais serão as suas consequências:
1. O que é o Plano Nacional de Educação?
O PNE (Plano Nacional de Educação) é uma lei ordinária, prevista na Constituição Federal, que entrou em vigência no dia 26 de junho de 2014 e valerá por 10 anos. Ela estabelece diretrizes, metas e estratégias de concretização no campo da educação. A partir do momento em que o PNE começa a valer, todos os planos estaduais e municipais de Educação devem ser criados ou adaptados em consonância com as diretrizes e metas estabelecidas por ele.
2. Quais são as metas do PNE?
O PNE tem 20 metas que abrangem todos os níveis de formação, desde a educação infantil até o ensino superior, com atenção para detalhes como a educação inclusiva, a melhoria da taxa de escolaridade média dos brasileiros, a formação e plano de carreira para professores, bem como a gestão e o financiamento da Educação. O plano também dá grande peso ao financiamento e ampliação dos investimentos.Conheça cada uma das metas.
3. Quanto o Brasil investe em educação atualmente?
A porcentagem do investimento público direto em educação, em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) do país, foi de 5,3% em 2012, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). A meta do PNE é que o país passe a investir o equivalente a 10% do PIB em educação. Isso deverá significar o montante de R$ 50 bilhões investidos anualmente em educação. Ou seja, o dinheiro destinado à educação deverá ser quase o dobro ao fim da vigência do plano, em 2023. Lembrando que a meta é que o investimento cresça gradualmente: a ampliação deve ser para 7% do PIB nos próximos cinco anos, chegando a 10% no prazo dos cinco anos seguintes.
4. De onde vai sair o dinheiro para aumentar o investimento em educação para 10% do PIB?
A lei de destinação dos royalties do petróleo, sancionada em 2013, estabelece que 75% desses recursos e 50% do Fundo Social do Pré-Sal serão destinados à educação. Esta é uma das principais fontes para se atingir, em 10 anos, a meta equivalente a R$ 50 bilhões anuais para a área. No decorrer da vigência da lei deverá também haver uma redistribuição orçamentária, especialmente do governo federal – que passará a ter maior participação no investimento total em educação, além da criação de novas fontes de recursos que garantam que o objetivo do PNE seja atingido.
5. O que é CAQi (Custo Aluno-Qualidade Inicial)?
No prazo de dois anos a partir da vigência do PNE, será implantado o CAQi (Custo Aluno-Qualidade inicial), um valor nacional mínimo que deverá ser investido por estudante para garantir a qualidade do ensino a cada etapa da educação básica. O indicador será referenciado no conjunto de padrões mínimos estabelecidos na legislação educacional, e terá o financiamento calculado com base nos respectivos insumos indispensáveis ao processo de ensino-aprendizagem. O CAQi será progressivamente reajustado até a implementação plena. 
6. O dinheiro do PNE poderá ser investido na educação privada?
O PNE prevê investimento na educação privada uma vez que estabelece, como estratégia para o aumento de matrículas no ensino superior, a ampliação de programas como o Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior) e o Prouni (Programa Universidade para Todos). Para a expansão de matrículas na educação profissional, também há a previsão de aumentar a oferta de financiamento estudantil que é oferecida em instituições privadas de nível superior.
7. O salário dos professores vai aumentar?
Este é um dos grandes desafios do PNE. Algumas das metas do plano envolvem diretamente o professor, a valorização do magistério e o investimento na formação e na carreira de docentes. A meta 17, por exemplo, estabelece o respeito a profissionais de magistério das redes públicas da educação básica, com o objetivo de equiparar seu rendimento médio ao dos profissionais com escolaridade equivalente. Portanto, o salário dos professores deve, sim, aumentar. Isto deve acontecer até o final do sexto ano da vigência da lei.
8. O PNE vai aumentar o número de vagas em creches?
Sim. A primeira meta do PNE trata da educação infantil, e estabelece que até o fim da vigência da lei deve-se ampliar a oferta de vagas em creches para atender pelo menos 50% das crianças de zero a 3 anos. A meta é, também, que esta fase do ensino seja universalizada até 2016 para crianças de 4 a 5 anos de idade. Ou seja: em 2023, metade das crianças de até 3 anos de idade deverão estar matriculadas em creches, e 100% das que têm 4 ou 5 anos de idade devem frequentar a escola.
9. O PNE vai aumentar o número de vagas no ensino superior?
Sim. A meta número 12 do Plano é elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% e a taxa líquida para 33% da população de 18 a 24 anos, assegurada a qualidade da oferta e expansão para, pelo menos, 40% das novas matrículas, no segmento público.
10. Quem vai fiscalizar o cumprimento do PNE?
O próprio PNE estabelece que a execução e cumprimento deverão ser monitorados de forma contínua, com avaliações periódicas. São responsáveis por esta fiscalização o MEC (Ministério da Educação), a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados e a Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal, o CNE (Conselho Nacional de Educação) e o Fórum Nacional de Educação. O monitoramento será realizado por meio de documentos, como estudos do Inep, que devem ser publicados a cada dois anos durante a vigência da lei para mostrar a aplicação do Plano, e a realização de atividades como Conferências Nacionais de Educação. Os cidadãos que desejarem acompanhar o cumprimento das metas podem monitorar os índices no Observatório do PNE.
http://educacao.uol.com.br/noticias/2014/07/03/pne-confira-10-perguntas-e-respostas-para-entender-o-plano-nacional-de-educacao.htm

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Computador adora criança


"O desafio é usar essa ferramenta para levar o aluno à inovação", afirma Ronaldo Mota

Fonte: Estado de Minas (MG)
Alguns adultos gostam mais e outros menos de computador. Computador, por sua vez, parece adorar as crianças. Transformar essa ferramenta natural em meio para estimular a capacidade de inovação é talvez o desafio educacional mais importante dos nossos tempos. Mattew Lipman costumava afirmar: “Há algo em comum entre as crianças e os filósofos: a capacidade de se maravilhar com o mundo”.
O Professor Lipman, falecido em 2010, foi um pioneiro em novas abordagens de Educação para crianças. Em 1972, deixou a Universidade de Columbia para desenvolver suas ideias, tornando-se um líder mundial no Ensino de filosofia para crianças. Uma questão contemporânea similar diz respeito a como incluir o tema atual “inovação” como parte integrante do Ensino fundamental e acerca da pertinência e possibilidade de explorar nesse nível uma metodologia compatível conhecida como “aprendizagem independente”. Isso decorre da nova exigência educacional quanto à preparação de futuros profissionais e cidadãos em geral para um mundo no qual a inovação é central.
Para tanto, é crucial o papel que as novas tecnologias, em especial as tecnologias digitais, incluindo a internet, podem desempenhar sobre as experiências educacionais de Alunos e Professores ao longo de suas vivências Escolares. Os adultos, muitas vezes, olham para o computador como um instrumento exógeno a ser eventualmente utilizado. Crianças mal percebem o meio e, se algo as maravilha, é o que elas produzem a partir dele, sem gastar um só segundo pensando na ferramenta, a qual lhe é natural, espontânea e intrínseca. Isso faz uma diferença enorme, dado que pulamos etapas e vamos direto ao jogo, à aprendizagem em si.
A principal característica da abordagem de aprendizagem independente é explorar a autonomia do educando, sendo elemento-chave adotar como centro do processo de aprendizagem o Aluno, tendo como referência principal o estímulo a aprender a aprender. Embora, a definição geral inclua a autoaprendizagem stricto sensu, de fato, na maioria dos casos, na Escola regular, a integração com o currículo e o Professor são os protagonistas nessa metodologia. Da mesma forma, ainda que em geral se associe o potencial uso dessa abordagem com adultos, certamente é quando bem jovem que o hábito do aprender a aprender melhor se desenvolve, com mais naturalidade e pertinência.
A complexa competência digital e a vocação para inovação se agregarão em nível de importância ao domínio do conhecimento tradicional e às competências e habilidades típicas ministradas nas Escolas atuais. Assim, a observação inicial de Mattew Lipman permite ser ampliada para: “Em comum entre as crianças, os filósofos e os inovadores há a capacidade de se maravilhar com o mundo e querer transformá-lo”. Olhar com olhos de gosto pelos desafios, e não de acomodação, pode fazer com que a nova geração vislumbre novos problemas e soluções inovadoras, criando e inventando caminhos inéditos. Assim seja. 

Alunos da rede estadual de ensino são premiados com 10 mil tablets, no Rio

Da Agência Brasil Edição: Valéria Aguiar
O Sistema de Avaliação da Educação do Estado do Rio de Janeiro, por meio do programa da Secretaria de Estado de Educação, premiou com tablets, 10 mil estudantes da rede estadual de ensino, que tiveram maior rendimento na avaliação de 2013. Um grupo de alunos recebeu hoje (3), no Palácio Guanabara, sede do governo estadual, os equipamentos durante cerimônia simbólica. Os outros aparelhos serão entregues por um grupo de cada região do estado, após a Copa do Mundo. 
O projeto entrega 10 mil aparelhos por ano e a premiação é feita em forma de reconhecimento por mérito aos alunos da rede pública estadual. Os estudantes contemplados fizeram a avaliação no ano passado e muitos já estão na faculdade. De acordo com o secretário de Estado de Educação, Wilson Risolia, o objetivo do programa é incentivar o ingresso dos alunos nas faculdades para  que eles continuem se esforçando em busca de melhores resultados.
Nós temos várias ações de incentivo para os alunos e este equipamento é um deles. Nesse grupo, temos alunos que já fazem faculdade, o que a gente quer. Têm muitos alunos em universidades públicas e outros que recebem bolsas integrais das faculdades particulares, conveniadas por nós. As bolsas nas universidades são obtidas pelos melhores resultados que os alunos alcançam. A gente quer passar para os jovens que por meio do esforço deles, que é possível ter a recompensa com um futuro melhor", disse.
Além de fornecer os computadores de mão, o programa promove outras ações, como estágio remunerado, viagens culturais para os alunos que se destacam, além da concessão de bolsas de estudo  em universidades particulares. Segundo o secretário, os resultados vem sendo alcançados a cada ano.
"Todas estas ações têm um simbolismo -  maior esforço e melhores resultados. Têm algumas ações que o estado faz questão de incentivar para que os alunos continuem se esforçando e isso tem dado muito certo”, disse.
A cada ano nossos resultados vem melhorando e o número alunos fazendo faculdade também vem aumentando. As ações de reconhecimento começaram em 2011 com o Programa de Viagens Jovens Turistas. A escola ganha uma viagem turística cultural com acompanhamento pedagógico. Este prêmio permite ao aluno conhecer a cidade, os teatros, museus, pontos turísticos, centros cultural e histórico", explicou Risolia.

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2014-07/alunos-da-rede-estadual-de-ensino-sao-premiados-com-10-mil-tablets-no-rio

quinta-feira, 3 de julho de 2014

PNE sairá do papel com fiscalização e atitude da sociedade

Apenas uma sociedade atuante e vigilante vai garantir que o Plano Nacional de Educação (PNE) seja efetivado. A opinião é de especialistas da área do ensino entrevistados pelo NET Educação. A presidenta Dilma Rousseff sancionou o plano, nesta quarta-feira (25/06), sem nenhum veto, segundo informações da assessoria de imprensa da Presidência da República. Após três anos e meio de tramitação no Congresso Nacional, o PNE foi aprovado no início do mês pelos deputados.
Com as diretrizes nacionais validadas, o próximo passo é a formulação ou revisão dos planos municipais e estaduais de educação. Segundo o PNE, o prazo é de um ano para a conclusão dos planejamentos regionais. Hoje, apenas 38 dos estados e 66% dos municípios têm planos. “Esse passo é imprescindível para a realização das metas previstas no PNE, uma vez que as redes estaduais e municipais são responsáveis pelo atendimento na educação básica. Serão as políticas públicas locais que concretizarão muitas das estratégias”, avalia a superintendente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), Anna Helena Altenfelder.
Em paralelo, a sociedade deverá acompanhar e cobrar os avanços, de acordo com o coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara. “Os atores sociais precisam se apropriar do PNE. Não é algo que vai acontecer porque foi formulado, mas sim por existir esforço em cima de cada uma das metas. Há necessidade de colocar o plano no centro da roda e deixar claro para os governantes que deve ser uma prioridade.”
Anna Helena acredita que será mais fácil mensurar o novo plano em relação ao último instituído para o decênio 2001-2010, já que são 20 metas em oposição às 295 do plano anterior: “há melhor compreensão de onde se quer chegar. Essa composição favorece o controle social”, afirma. “Mas o princípio é o de união de esforços, de articulação das forças sociais comprometidas com a educação pública brasileira”, diz. O documento traça as diretrizes para o ensino no país em todos os níveis educacionais, que deverão ser cumpridos nos próximos 10 anos.
Mecanismos de controle
Está previsto no PNE a obrigatoriedade da entrega de relatórios bienais, realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), sobre o andamento do PNE, “justamente para evitar que um gestor empurre ao outro sua responsabilidade e então garantir um resultado positivo com o plano”, acredita a presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Cleuza Repulho.
Para ela, deverá haver “transparência no investimento, o que vai para cada ente e qual sua responsabilidade”. No caso dos municípios, uma das metas é alcançar 50% do atendimento em creches. “Quais recursos e por meio de qual mecanismo vai chegar o investimento nas pontas? Serão programas do governo federal? Serão repasses por meio do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica]?”, questiona.
Cara ainda lembra que dentre as metas, estão previstos o envolvimento dos conselhos de educação, a atuação das controladorias dos estados e municípios, além da Controladoria Geral da União (CGU) – responsáveis pela fiscalização e possíveis denúncias de ilegalidade.
Outro instrumento será a formulação do Sistema Nacional de Educação, também previsto nas metas do PNE. A disputa do conteúdo do sistema refere-se ao equilíbrio federativo nos processos de tomada de decisão e no compartilhamento de responsabilidades em termos de políticas educacionais, de acordo com a Campanha Nacional.
“Essencial para que o plano seja implementado na prática é o regime de cooperação entre os entes federados, a partir do princípio de que o PNE é uma política de Estado e não de governos”, ressalta Anna Helena. “Para tanto, será necessário, além da definição de papéis, já prevista em lei, na Constituição federal e LDB, a instituição de instâncias permanentes de negociação, cooperação e pactuação, configurando esse sistema.”
Segundo Cleuza, o principal diferencial do novo plano que possibilitará sua viabilização foi deixar melhor firmado o compromisso com o financiamento. “Isso não aconteceu no outro plano. Sancionou, mas não indicou recursos e não saiu do papel já que todas as demandas estão associadas a investimentos”, finaliza.
Autor: NET Educação
http://undime.org.br/pne-saira-do-papel-com-fiscalizacao-e-atitude-da-sociedade/

Entrevista: "Alfabetização deveria concentrar os melhores professores", diz pesquisador

O pesquisador argentino Axel Rivas passou mais de dez anos visitando escolas e analisando sistemas educacionais em todo o mundo. Para ele, as desigualdades mais profundas são de aprendizado, e a alfabetização é o momento que deveria concentrar os melhores professores


Ricardo Braginski, de Buenos Aires


Dr. Axel Rivas
Atualmente é difícil encontrar na Argentina especialistas interessados em pesquisar o que acontece em sala de aula e o que se passa entre professores e alunos. Também são raros aqueles que têm uma perspectiva ampla e pluralista da educação e que defendam a redução das desigualdades sem enredar-se em discussões ideológicas. Axel Rivas, 39, uma das vozes jovens mais ouvidas nos dias de hoje no campo da educação, é um desses pesquisadores.
À frente da área de Educação do Centro de Implementação de Políticas Públicas para a Equidade e o Crescimento (CIPPEC), organização argentina dedicada à formulação de políticas públicas para reduzir as desigualdades sociais, Rivas passou mais de dez anos percorrendo escolas e ministérios educacionais de vários países e de todas as províncias argentinas.
Doutor em Ciências Sociais e professor universitário, Rivas recentemente escreveu Caminos para la educación, Viajes al futuro de la educación e Revivir las aulas, os três ainda sem tradução para o português. Em um típico café de Buenos Aires, Rivas recebeu a revista Educação para falar sobre os principais desafios da educação na América do Sul, como reduzir as desigualdades e o futuro da sala de aula.

Quais são as principais causas da desigualdade educacional? E quais as melhores políticas educacionais para superar esse problema?
A oferta continua desigual, favorecendo os que têm mais recursos. O que o Estado pode fazer é melhorar a infraestrutura, melhorar a proporção de alunos por professor e valorizar os professores com mais tempo de serviço. Mas as desigualdades mais profundas são de aprendizado e estão organizadas a partir da exclusão das classes mais baixas, especialmente no ensino médio. Aqui as transformações necessárias são mais complexas e envolveriam ações como a criação de um regime especial para as alunas grávidas, por exemplo. As desigualdades também têm uma relação muito estreita com o contexto familiar. A escola frequentemente envolve a realização de deveres e atividades em casa, mas o resultado disso varia muito de acordo com o nível sociocultural de cada aluno.

Pela sua experiência, quais são os aspectos fundamentais que devem ser enfatizados pelos sistemas educacionais da América Latina para oferecer uma educação de qualidade e, ao mesmo tempo, inclusiva?
Os três principais aspectos são a docência, os conteúdos temáticos que compõem o currículo e a dimensão institucional das escolas. A valorização da docência é um eixo que todos os países da região já reconhecem como uma prioridade. Sabe-se que qualquer proposta de reforma curricular que prescinda da participação dos professores não terá sucesso. Quanto aos conteúdos, sabe-se que eles requerem revisão contínua. Agora, na Argentina, contamos com uma ampla lista de conteúdos temáticos e metas de aprendizagem que correspondem a uma visão enciclopédica da aprendizagem – memorização e quantidade como elementos mais importantes que a reflexão. Estamos caminhando para uma situação em que teremos de ensinar menos e melhor. Deve haver conteúdos estruturantes fundamentais e eles devem ser claros para todas as escolas, além de constituírem o princípio organizador de um trabalho muito mais amplo, em torno do qual se concentrarão diversos tipos de atividades. Finalmente, o terceiro eixo está ligado à necessidade de termos uma estrutura institucional diferente que possibilite a personalização do ensino. Hoje temos horários muito rígidos, muito estritos, que impedem, por exemplo, que uma aula de matemática de 40 minutos possa se desdobrar em desafio a ser trabalhado durante toda a semana. Tudo é muito fixo.

Por que você propõe a priorização da primeira série e como isso deve ser feito?
Há muitos estudos que mostram que a primeira série é a mais importante do primário e de toda a educação. É o momento de configuração da relação do aluno com a escola – uma ligação que irá durar por muitos anos – e também quando se dá o que alguns educadores chamam de a mais longa sequência da escolaridade, que é a alfabetização. A primeira série deveria concentrar os melhores professores e ter uma maior continuidade pedagógica. Mas isso exigiria que o professor trabalhasse com o mesmo grupo de estudantes por muitos dias seguidos, provavelmente por mais de um ano. Isso explica a tendência de unir o primeiro e o segundo ano. A ênfase nessa etapa pode se produzir com a ação dos diretores, que devem fazer da primeira série a mais desafiante para os professores. Os melhores devem estar ali. Também é possível exigir uma experiência mais consistente desses educadores. Além disso, a primeira série também deve ser uma prioridade para toda a escola, institucionalmente. Na Finlândia, as atenções são voltadas aos dois primeiros anos. Todos na escola estão comprometidos em prover às crianças o sentimento de que elas são bem-vindas e de que nada pode excluí-las. Essa concepção é totalmente contrária à ideia de que a repetência pode ser justificada. Independentemente de qualquer motivo pedagógico, a repetência nessa época pode gerar um dano à subjetividade do aluno muitas vezes irreversível. Muitas pesquisas mostram que aqueles que repetem não aprendem mais. Pelo contrário, eles tendem a repetir novamente e a abandonar a escola. Na Argentina, 10% das crianças repetem a primeira série. No Brasil, esse índice é de cerca de 20%. É um mecanismo que exclui em um momento que deveria ser de inclusão, de boas-vindas para os alunos.

Alguns países da região, como o Chile, estão criando rankings de escolas e divulgando seus resultados. Qual sua opinião sobre isso?
Os pesquisadores estão inclinados a dizer que a competição entre as escolas não gera melhores resultados, mas sim frustração, evasão, sentimento de desproteção, vantagens para as famílias de maior nível cultural, etc. Acredito que a educação não deve ser projetada com finalidades de competição. Pelo contrário, cada sistema tem de evoluir com seus próprios erros e acertos, deve trabalhar de forma colaborativa e tomar decisões com base em suas convicções e capacidades, e não por pressão externa. Os sistemas com melhores desempenhos não estimulam a competição entre as escolas. Nem na Coreia do Sul nem em Cingapura, onde as escolas trabalham de forma integrada. Boa parte do trabalho é feito em comunidade, o que é muito difícil de acontecer quando você está competindo o tempo todo pelos mesmos resultados e pelos mesmos alunos.

Você conheceu sistemas educacionais de várias partes do mundo. O que aprendeu com eles?
Mais do que peças isoladas de sistemas, há exemplos de boas práticas que podem ser seguidas. Vou citar dois países com sistemas antagônicos: a Finlândia e a Coreia do Sul. Ambos obtêm bons resultados e são líderes mundiais no Pisa, o que mostra a fragilidade de provas como essa. A Coreia do Sul tem índices elevadíssimos, mas lá os alunos estudam, em média, 12 horas por dia, sendo oito horas em sala de aula e mais quatro com professor particular. Eles dormem pouco, não têm infância, não se divertem e não têm tempo livre. Enfim, são jovens fadados ao estudo. A estrutura social e cultural deles está baseada nos resultados de um teste realizado ao final do ensino médio que, praticamente, define a vida da pessoa: o quanto ela vai ganhar, com o que vai trabalhar e com quem vai se relacionar. Queremos este modelo educacional? A minha resposta é não. Eu não quero viver em um país que tem a maior taxa de suicídio infantil. Felizmente temos o exemplo da Finlândia, que evidencia o poder que pode ter o ensino personalizado baseado na autonomia e na formação dos professores. Este modelo tem bons resultados e gera um desejo de aprender sem pressionar os alunos com provas. A situação é inversa: os alunos têm poucas horas de estudo na escola. Se eles tivessem maus resultados, alguém poderia dizer “prefiro um modelo assim apesar dos maus resultados”. Mas os resultados são bons, então dá para defender o modelo e seus resultados.

Atualmente, quais são as habilidades necessárias para exercer o papel de liderança na escola? Os diretores estão suficientemente preparados?
A formação dos gestores é algo que vem sendo muito debatido nos países da América Latina, como Equador, Brasil, Peru, Colômbia e Argentina. A formação dos gestores finalmente, embora tardiamente, teve sua importância reconhecida, pois até então ela nunca tinha sido incorporada como uma variável importante do sistema de ensino. Formar bons gestores e selecioná-los bem é um dos pressupostos mais importantes das reformas educacionais, pois aqueles bem preparados têm capacidade de gerar projetos, de motivar em contextos de crise, de inovar, de provocar engajamento. A figura do líder ganhou uma importância que não existia há 30 ou 40 anos, quando a escola era parte de um sistema que se autorregulava.

Quais são as mudanças concretas introduzidas pela internet e pela utilização de novas tecnologias em sala de aula? E que mudanças pedagógicas são necessárias para enfrentar essa transformação?
Fala-se em substituir a escola tradicional pela escola virtual. Acho que essa é uma ameaça real, diferente das surgidas em outras épocas. No entanto, isso não vai acontecer no curto prazo. A revolução digital, a possibilidade de acesso ao conhecimento por um baixo custo, pode ter muitas implicações. Nos próximos cinco ou dez anos, a mudança deveria ser o foco da discussão e não a possível melhora que ela trará para o sistema. Mas estamos lamentavelmente despreparados para essa reflexão. Mas por que isso? A resposta está no mercado: sistemas privados, educação virtual, livros digitais, tablets, sistemas virtuais de aprendizagem, para tudo isso você tem de pagar. As empresas se movem mais rápido e geram desigualdades. A questão é como o estado reconfigura seu sistema para não perder o caminho da distribuição da riqueza, que é uma de suas missões. A grande questão é se estamos à altura desse desafio, que é muito complexo e que está por vir.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Futuro da aprendizagem móvel: implicações para planejadores e gestores de políticas



O relatório ajuda a orientar a forma de destacar assuntos e questões sobre o que se pode fazer com a aprendizagem móvel nos próximos 15 anos ou mais. A publicação apresenta uma visão geral da situação atual da aprendizagem móvel, descrevendo recentes desenvolvimentos na educação formal e informal, aprendizagem inovadora e tecnologia educacional. Baseado nas tendências atuais, o relatório faz previsões para o futuro da aprenzigem móvel, prevendo avanços tecnológicos nas áreas específicas relacionadas a esse tipo de aprendizagem. As demais seções discutem a aprendizagem à luz das metas de Educação para Todos (EPT), tanto agora quanto no futuro, e identifica as primeiras possibilidades para a aplicação da aprendizagem móvel, bem como as principais barreiras para seu desenvolvimento. Finalmente, o relatório apresenta os desafios a serem enfrentados nos próximos 15 anos para que as conquistas de educadores e pesquisadores em aprendizagem móvel sirvam de base para aumentar a qualidade da educação e assegurar oportunidades sustentáveis de aprendizagem para todos.

Título original: The Future of mobile learning: implications for policy makers and planners.
Brasília: UNESCO, 2014. 64 p. ISBN: 978-85-7652-188-4.
Download gratuito:


http://www.unesco.org/new/pt/brasilia/about-this-office/single-view/news/o_futuro_da_aprendizagem_movel_implicacoes_para_planejadores_e_gestores_de_politicas_pdf_only/#.U6rur5RdXkw

Entrevista: Impactos da globalização na educação

Dr. Antoni Verger

Pesquisador da Universidade Autônoma de Barcelona, Antoni Verger analisa como a globalização está impactando a educação ao redor do mundo e os atores que influenciam a agenda educacional mundial


Juliana Holanda
Colaborou Marina Kuzuyabu

A influência exercida pelo setor privado e pelas or­ga­nizações internacio­nais nas políticas educacionais é um dos principais temas de estudo de Antoni Verger, pesquisador da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) que, em março, esteve no Brasil para participar do II Seminário Regional sobre a Privatização da Educação, realizado pela Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação (Clade). Ph.D. em Sociologia, Verger explora como tais instituições estão moldando ou tentando moldar a agenda educacional ao redor do mundo, e os impactos das políticas globais criadas a partir dessas influências.
Na entrevista a seguir, Verger explica como, direta ou indiretamente, esses organismos tentam impor aos governos mudanças em seus sistemas educacionais sob o argumento de que melhorarão o acesso da população à educação e de que tornarão o setor mais eficiente e desburocratizado, movimento percebido principalmente nos países em desenvolvimento. Mas o pesquisador alerta: as nações ricas não estão imunes a esse processo, principalmente quando contam com a presença de instituições de prestígio, como a Fundação Bill e Melinda Gates.

Uma das conclusões de seu estudo é que a globalização está afetando drasticamente o cenário das políticas educacionais ao redor do mundo. O que estamos testemunhando hoje em dia?
A globalização afeta a educação de muitas maneiras e por razões de naturezas diversas. Sobre isso, podemos mencionar desde a revitalização do papel desempenhado pelas organizações internacionais nas políticas educacionais – papel tradicionalmente reservado para os governos nacionais ou locais – até os avanços tecnológicos que têm permitido a disseminação de formas de educação transfronteiriças, como os Moocs [Massive Online Open Courses, sigla em inglês para cursos online massivos e abertos]. No entanto, os efeitos mais significativos da globalização têm uma natureza bastante indireta. Refiro-me a todas as mudanças sociais e econômicas trazidas por esse processo, como o crescimento das desigualdades sociais ou a aceleração da dinâmica da competitividade econômica entre os países. São mudanças importantes que transformam significativamente as prioridades educacionais dos governos, bem como o ambiente socioeconômico onde os agentes educacionais atuam. E não é só isso. A globalização gera novos desafios para os sistemas educacionais e altera a capacidade dos Estados e dos organismos de segurança social de responder a esses problemas por meio de políticas educativas. Por exemplo, no contexto de uma economia globalizada, muitos governos têm dificuldade para responder diretamente às novas demandas educacionais, o que facilita ao setor privado assumir um papel maior na prestação e no financiamento da educação.

Quais organizações internacionais e políticas estão moldando a agenda educacional e disseminando práticas educativas globais?
Sobre esta questão é inevitável começar pelo famoso Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes] da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico], que avalia e compara as competências adquiridas por alunos de 15 anos em uma ampla gama de países. Esse relatório exerce nos governos uma pressão sutil, mas ao mesmo tempo muito eficaz, para que modifiquem seus sistemas educacionais. Ele, inclusive, tem gerado modelos de referência, como o da Finlândia, que muitos governos têm buscado imitar. A própria OCDE, por meio de periódicos como o Pisa em Foco, também recomenda aos países quais práticas e políticas podem levar ao sucesso educativo tomando como base os resultados da prova. Os países que levam mais a sério os desafios deste relatório têm tentado melhorar a sua educação por meio da equidade. Em contrapartida, aqueles que procuram resultados mais imediatos se limitam a intensificar a carga curricular nas áreas de conhecimento avaliadas pelo Pisa. Também cabe mencionar, principalmente nos países dependentes financeiramente, a grande influência exercida pelas instituições financeiras internacionais e pelos bancos de desenvolvimento em função da capacidade deles de condicionar a concessão de crédito. Ainda sobre esta questão, é importante referir novamente os efeitos indiretos da globalização e, em particular, as organizações internacionais. Por exemplo, em países europeus, especialmente nos países do sul da Europa, as políticas macroeconômicas e a austeridade impostas pela União Europeia – e pelo FMI – tiveram um efeito mais significativo sobre os sistemas de ensino dos países-membros que a própria “agenda educacional europeia”. Essas políticas de austeridade impuseram cortes orçamentários muito graves na educação e, claramente, limitaram a margem de ação política dos governos nesta área.

Quais fatores motivam os governos a adotar novas políticas?
Para responder a esta pergunta é melhor partir de um exemplo concreto como a privatização da educação, uma política que ocupa, sem dúvida, uma posição central na agenda global da educação. Mas, na realidade, não é possível identificar um único padrão que explique por que os países importam ou adotam políticas educacionais de privatização em escala global. As razões que impulsionam os governos variam muito.
Desde os anos 80, com o surgimento do neoliberalimo, a privatização da educação tem tido grande aceitação entre os governos conservadores e liberais, que acreditam que o setor privado é inerentemente superior ao público na gestão de todos os tipos de serviços, incluindo a educação. No entanto, nos últimos anos, estamos vendo a privatização avançar também em países com uma tradição social-democrata, onde os governos adotam medidas de privatização educacional não porque eles achem que o setor privado é melhor do que o público, mas porque eles pensam que a privatização pode ser um bom caminho para a desburocratização dos sistemas de segurança social e para a promoção de oferta educativa mais diversificada. Em países de baixa renda, por outro lado, a privatização avança sob lógicas muito diversas. Nas últimas décadas, muitos têm recebido pressões internas e externas para expandir a educação, o que, a priori, é muito positivo. O problema surge quando, diante de restrições financeiras, os gestores pensam que a única forma de expandir o acesso à educação é por meio do setor privado. Sob uma lógica semelhante, a privatização também avançou nos países mais desenvolvidos em profunda crise econômica. Também acrescentaria que em países europeus com uma presença significativa de escolas religiosas, como Bélgica, Holanda, Espanha e muitos países da América Latina, as políticas de terceirização do setor privado são comuns. Estas políticas de “aliança” com o setor de ensino privado, principalmente o religioso, são rea­lizadas por uma série de razões, entre elas para conferir eficiência ao setor, para garantir a liberdade na oferta de ensino para a população e para responder a um lobby que costumava ser muito poderoso, como o da Igreja Católica ou Protestante. Finalmente, outra razão para o avanço da privatização é a existência de uma série de organismos internacionais e consultorias influentes que, como mencionei acima, estão promovendo de forma entusiástica tais políticas e tentando convencer os governos de seus potenciais benefícios. No entanto, vale dizer que a privatização geralmente é promovida por razões ideológicas, já que não há evidências acadêmicas suficientes para justificar a política a favor da privatização.

Quais são as principais diferenças desse processo nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento?
Hoje em dia estão muito diluídas as diferenças na forma como operam os mecanismos da globalização. O exemplo que acabei de colocar sobre o sul da Europa – sobre as condicionalidades e imposições das organizações internacionais – mostra isso. Outros exemplos podem ser extraídos das fundações filantrópicas que atuam não só em países pobres, mas também em países ricos. Nos Estados Unidos, a Fundação Bill e Melinda Gates tem uma grande capacidade de influenciar a agenda educacional do governo federal e de muitos de seus membros e, entre outras coisas, está conseguindo promover eficazmente o modelo das escolas charter. Apesar disso, os países de baixa renda, que continuam dependentes de financiamento externo, são sim mais vulneráveis ​​aos critérios e prioridades estabelecidos pelos países ricos e organizações doadoras. Em muitos países onde houve uma descentralização da educação, sem garantia de transferência de competências para o nível local, se abriu um grande mercado para as consultorias internacionais, como a Pearson ou a Cambridge Education, que vendem pacotes curriculares e de reformas educativas com os quais prometem resolver muitos problemas educacionais. Esse mercado de consultoria internacional não prospera, pelo menos com tanto êxito, nos países mais ricos, pois eles contam com uma maior capacidade técnica nos governos regionais e locais para resolver certos problemas sem a necessidade de recorrer a intermediários externos.

Quais são os impactos dessas políticas na prática educacional?
Muitos estudos sobre a relação entre globalização e educação, especialmente aqueles com uma visão mais antropológica, mostram que a adoção formal de políticas globais pelos governos nem sempre se traduz em mudanças reais nas práticas educativas aplicadas em escolas ou na sala de aula. Outros estudiosos da globalização educacional, como Gita Steiner-Khamsi e seus colegas do Teachers College [Faculdade de Educação da Universidade de Columbia], têm mostrado que muitos governos podem estar adotando políticas educacionais globais para aderir às exigências das organizações internacionais a fim de legitimar suas políticas ou, especialmente no caso dos países em desenvolvimento, para obter financiamento externo. Mas, uma vez alcançados os recursos, os governos continuam­ com suas práticas habituais. Essa visão é muito interessante e relevante, pois, de fato, os sistemas educacionais formam redes de agentes, instituições e interesses muito amplos e complexos de tal forma que tendem a ser resistentes a mudanças bruscas ou às constantes demandas por reforma, tanto externa como interna, que recebem. No entanto, não podemos subestimar o fato de que muitas organizações internacionais têm sido muito eficazes tanto em alterar as prioridades e os objetivos educacionais de muitos governos como em divulgar soluções e políticas educacionais.

Há algum efeito positivo das políticas educacionais? Elas podem melhorar o acesso global à educação?
É claro que o simples fato de que há cada vez mais países procurando melhorar a educação a partir de boas práticas internacionais é positivo em si – desde que essa melhoria não esteja relacionada exclusivamente com os resultados dos testes padronizados. Além disso, há agendas educacionais internacionais, como a Educação para Todos, lançada no Congresso Mundial de Educação, realizado em Jomtien (Tailândia), em 1990, que tiveram e têm impactos muito positivos no campo da educação para o desenvolvimento. Agendas como essas se tornaram aliadas de movimentos e grupos sociais que defendem o direito universal à educação e possibilitaram que muitos governos de países em desenvolvimento e agências internacionais de desenvolvimento concentrassem seus esforços para viabilizar e ampliar o acesso de crianças e jovens a uma educação de qualidade.

Você cita em seus textos um estudo, feito por três pesquisadores, sobre transferência condicionada de renda no Brasil. 
Poderia dar mais detalhes ?
Conheço bem o trabalho de Bonal, Tarabini e Rambla, já que fizemos parte do mesmo grupo de pesquisa, o GEPS (Globalização, Educação e Política Social). O mecanismo estudado por eles é um bom exemplo de política que passou a integrar fortemente a agenda global e, sobretudo, um grande exemplo de como uma política global pode se recontextualizar e ter impactos distintos em diferentes territórios. Eles apontam que, no Brasil, o mesmo programa de transferência de renda condicionada, o Bolsa Escola, foi adotado de forma diferente pelos governos locais. Especificamente sobre isso, eles mostraram que em função de alguns aspectos, como a intensidade da transferência monetária ou o nível de componentes educacionais incluído no projeto final, a Bolsa Escola teve efeitos sociais e educativos muito variados.

http://revistaeducacao.uol.com.br/textos/205/a-logica-globalpesquisador-da-universidade-autonoma-de-barcelona-antoni-verger-311287-1.asp

terça-feira, 1 de julho de 2014

Entrevista: John Deasy "Demitir professores ineficientes é uma decisão correta"

John Deasy, superintendente de educação do distrito de Los Angeles, testemunha na Justiça durante o julgamento do caso "Vergara versus Califórnia" (Monica Almeida/AP)
Saiba mais sobre o caso A batalha judicial conhecida com Vergara versus Califórnia começou em 2012 com uma ação movida por nove estudantes do Estado — entre eles, as irmãs Beatriz e Elizabeth Vergara, alunas de Los Angeles que acabaram cedendo o sobrenome ao caso. Durante o processo, os estudantes foram apoiados pela ONG Student Matter, criada em 2010 pelo magnata das telecomunicações David Welch, que contratou seis advogados de um dos mais renomados escritórios de advocacia dos Estados Unidos para assumir a causa. Antes de proferir o veredicto, a Justiça ouviu depoimento de mais de 30 pessoas.
Em 2012, nove estudantes da Califórnia pediram na Justiça a revogação da lei que dificultava a demissão de professores de escolas públicas do Estado. O objetivo era impedir que maus docentes continuassem atuando em sala de aula. Há três semanas, veio o veredito favorável — e inédito — da Suprema Corte da Califórnia, elogiado pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos e criticado pelos sindicatos. "A questão central não é demitir ou não maus professores, mas garantir ensino de qualidade às crianças. É um direito constitucional", diz John Deasy, superintendente de Educação de Los Angeles, que testemunhou no processo em favor dos estudantes. Deasy chefia a maior rede de escolas públicas da Califórnia e segunda maior dos Estados Unidos, com 1.300 escolas, 27.800 professores e mais de 900.000 alunos (a cidade de São Paulo tem 3.154 escolas, cerca de 59.856 professores e 932.174 estudantes). Apesar da decisão judicial, vai demorar até que o primeiro professor seja demitido por mau desempenho. Antes, sindicatos devem recorrer da decisão e legisladores precisam pavimentar a via legal até a demissão. Isso não diminiu a importância do veredicto, diz Deasy. "Essa é a maior decisão já tomada na área de educação na Califórnia. Faremos o possível para levá-la adiante." Na entrevista a seguir, ele conta por que abraçou a causa e como devem ser avaliados os professores, uma tarefa necessária para apontar quem sabe ou não ensinar.
Por que o senhor testemunhou na Justiça em defesa dos estudantes? Há situações em que precisamos escolher uma verdade e nos apoiar nela. O pedido dos nove estudantes tinha muito mais a ver com a garantia dos direitos dos estudantes do que com a redução dos benefícios dos professores. Por isso, decidi apoiá-los. Os professores querem fazer um bom trabalho, mas não apreciam quando alguém quer observar suas aulas, ainda mais com base em leis e regras que eles acreditam ferir sua autonomia. Ainda assim, não acho que esse seja o único ponto para melhorar a qualidade da educação. Precisamos de bons funcionários ao mesmo tempo em que devemos oferecer boas condições de trabalho a eles. Há um número enorme de professores fazendo um excelente trabalho. Após meu testemunho, recebi apoio de um grande grupo, incluindo pais e estudantes, que ficou feliz com a decisão. Houve, é claro, um grupo que ficou desapontado com o resultado: os sindicatos.
O senhor previa a reação negativa dessas entidades? Sim, sabia do risco. E logo após a decisão, os sindicatos anunciaram que vão recorrer da decisão. Estão em seu direito. Qualquer um pode fazer uma apelação à Suprema Corte, inclusive o Estado, que era o acusado em questão. Até o momento, não fizeram. Acredito, porém, que antes haverá negociação entre as partes, o Estado e os sindicatos, com quem o governo mantém boas relações. Desde que assumi o cargo, em 2011, não enfrentamos greves de professores. Houve uma ameaça em 2012, mas não se efetivou. A relação com esses grupos é boa.
Quando a decisão da Justiça deve começar a ser posta em prática? Infelizmente, não antes de dois ou três anos, uma vez que há margem de apelação de ambas as partes. Se isso acontecer, teremos que percorrer um novo e longo caminho na Justiça. O caso cresceu tanto que não sabemos ao certo quantas organizações nos apoiam e quantas estão dispostas a apelar na Corte.
O que a administração de Los Angeles terá de fazer para colocar a medida em prática? Essa é uma das partes do dilema desse caso: a lei não foi alterada ainda. O embasamento que temos é a decisão da Justiça, mas não sabemos em que situações poderemos usar o embasamento judicial para demitir um professor. Primeiro, precisamos esperar que o Estado mude o código de educação em vigor, para só assim colocar a medida em prática. Os legisladores precisão agora fazer novas leis para que a decisão entre em vigor de fato. Isso toma anos de debates e votações e não há nenhum projeto consistente encaminhado. Considero essa a maior decisão já tomada na área da educação na Califórnia. Faremos o possível para levá-la adiante.
Afinal, do ponto de vista do ensino, qual é o problema com os professores que justifique a luta pela quebra da estabilidade deles? É importante dizer que as dificuldades que enfrentamos com alguns professores não são específicas de Los Angeles. Com as regras vigentes no código de educação da Califórnia, é praticamente impossível demitir um professor, salvo em certas razões específicas como abandono de trabalho ou agressão. E esse processo custa muito caro: 400.000 dólares, em média. Se a demissão for motivada por ineficiência do docente, o processo custará ainda mais e poderá levar anos. Se tentarmos demitir um professor que não sabe ensinar matemática, por exemplo, mesmo sendo essa a sua disciplina, os sindicatos vão apelar incessantemente até esgotarem as possibilidades.
O que o senhor quer dizer exatamente quando fala em ineficiência do professor? Quando falamos de eficiência e ineficiência de um professor precisamos considerar três fatores. Primeiro, ele deve ter conhecimento do conteúdo que irá ensinar. Segundo, ser licenciado para lecionar. Terceiro, saber como proceder para garantir o sucesso da turma, com todos os fatores que cabem nessa questão: como o professor gerencia a aula, como ele apresenta os conteúdos etc. Ineficiência é o oposto disso.
Como Los Angeles mede a eficiência ou ineficiência dos professores? Temos uma avaliação anual que mede as habilidades dos docentes: como ele dá aula, qual o desempenho dos estudantes em sala e outros pontos específicos. No caso dos professores em estágio probatório, período de treinamento que dura dezesseis meses, eles ganham estabilidade no cargo antes da segunda avaliação anual, ainda que passem por um exame final do curso de formação. Esse é um dos pontos questionados no distrito e que devemos revisar em breve.
Nos últimos cinco anos, o desempenho de estudantes de Los Angeles melhorou consideravelmente em avaliações nacionais e estaduais. A que fatores o senhor atribui isso?Estou muito orgulhoso dos resultados. O desemprenho dos estudantes tem melhorado significativamente. Acredito que muito disso se deve ao fato de termos focado em metodologias de ensino, ao sistema de avaliação de professores e à ênfase na necessidade de termos bons docentes nas escolas, que inclui o desenvolvimento profissional desses funcionários. Também tem grande influência na melhora a busca por novos talentos, que fazemos em universidades que formam professores.
Que trabalho é feito para o aprimoramento dos professores? Em geral, são atividades de formação continuada. Em Los Angeles, 97,6% dos estudantes não falam inglês em casa. Em 93,4% dos casos, fala-se espanhol. Ao todo, são 92 idiomas e dialetos usados pelos estudantes das escolas públicas. Por isso, precisamos formar professores para trabalhar tanto o ensino dos conteúdos curriculares quanto o do inglês. Colocamos grande ênfase nesse tipo de trabalho e acredito que essa também é uma das razões de estarmos avançando.

http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/demitir-professores-ineficientes-e-uma-decisao-correta

Declaração para um novo ano

20 para 21  Certamente tivemos que fazer muitas mudanças naquilo que planejamos em 2019. Iniciamos 2020 e uma pandemia nos assolou, fazendo-...